Um tempo (km 0)

  “Não basta ser ocupado. A pergunta é: estamos ocupados com o quê?”

 (Henry David Thoreau)

Eu nunca saí de casa sem ter uma lista, um plano, milhões de post its coloridos cheios de tarefas grudados nas paredes da sala e duas agendas (uma no celular e outra de papel)… Eu nunca saí de casa sem ter uma ideia, uma meta, uma estratégia e porque não, um pacote de lenços umedecidos. Porque eu não gosto de chegar suada nos lugares em que vou. E com uma bicicleta, isso quase sempre acontece.

Foi assim, precisamente, desde o dia sete de janeiro de dois mil e treze, quando meu chefe me chamou em sua sala para me dizer “Sabe Helga, você é uma advogada muito dedicada, gostamos muito do seu trabalho, mas temos que reconhecer, não existe química entre você e esse escritório e por isso optamos pelo seu desligamento”. Deeesssssllliiiiiggggggaaaaammmmmeeeeeennnnnnttttoooooo. Sabe o que eu adoro nessa palavra? É que ela traduz bem aquele exato momento em que o seu peão é quicado para fora do tabuleiro do jogo da vida.  Aquela ali era eu, um peãozinho voando. Meu emprego, que me custava quase 12 horas diárias estava diluído em um simples “desligamento”. E o castelo de areia, de contas milionárias, clientes poderosos, problemas fictícios relacionados ao dinheiro dos outros, palavras em inglês e leis, havia acabado. Tudo se resumia a uma caixa de papelão, onde eu deveria acomodar todos os meus pertences e cair fora em mais ou menos uma hora. Foi o que o RH me explicou e eu confirmei quando meu computador foi devidamente travado antes que eu enviasse uma mensagem cordial de agradecimento aos meus, então, ex colegas de trabalho.

No jogo da vida corporativa nada divertida eu era uma baita fracassada. Não pulei a casa do “comprar o apartamento”, não pulei a casa do “casamento”, não coloquei os pininhos dos filhos no carrinho e ainda vendi o carro e fiquei com uma bicicleta. Embora eu fizesse um esforço enorme para me garantir nessa vida normal tão desejada pelo mundo. Eu simplesmente voei do mundo corporativo, onde todo mundo pula as casas rumo ao sucesso, absolutamente desligada.

E enquanto meu chefe me desligava com um discurso clichê, eu olhava para o meu tornozelo com vergonha, tentando esconder uma pulseirinha hippie que eu havia arrumado na praia, no réveillon. Pensava que eu não servia mesmo para vestir saltos laubotim, nem bolsas da loui vuitton, até que, antes de me levantar da cadeira, ele me disse “Sabe Helga, quem sabe não é algo assim, com a bicicleta. Quem sabe ciclismo profissional…”. Eu saí da sala sem dizer nada. Mas em um universo de 300 advogados, eu era uma das poucas que não queria comprar uma SUV e ia feliz para o escritório em cima de uma bicicleta. No fundo, eu sabia que aquilo era um misto de excentricidade e esquisitice para um escritório com mesas de mármore e canetas prateadas em meio a Avenida Paulista. É uma pena que uma bicicleta desafie o status quo das altas garantias da classe média alta desse país. Eu, advogada dedicada, não tinha química com esse mundo de luxuosos carros e cifrões. E merecia, quem sabe um lugar ao sol, correndo em cima de uma speedy. “Vou começar a treinar para o tour de france, pensei. Mas eles não aceitam mulheres…Eu acho.”.

Depois de trazer meus livros e minhas coisas em um taxi, voltei para o escritório para buscar a minha bicicleta. Pedalei a Paulista desligada e com uma tonelada e meia a menos nas costas. 12 horas de trabalho diárias e finais de semana com um blackberry fazem você conhecer o lado realmente triste da vida. Senti o vento no rosto, no caminho diário que me levava para casa e a dor no pé de quem acaba de chutar o balde, depois de tomar um pé na bunda. Eu estava rumo ao abismo do “o que eu vou fazer da minha vida agora?”. Resposta que não sei até hoje.

Um ano e meio depois desse dia, eu havia escrito um livro, e tornado realidade uma peça de teatro que também  escrevi e que guardei dentro do peito por três anos. Trabalhei de barista, assessora de imprensa, vendedora de loja, professora de inglês, advogada freelancer. Mas mesmo com tudo isso, eu ainda estava perdida e nada do que eu havia feito tinha se tornado um plano minimamente sustentável de vida. Mesmo considerando uma vida simples. As contas do mês não fechavam, embora o livro e a peça me trouxessem muita realização pessoal. Parecia inacreditável, mas um ano e meio depois eu sentia que tudo havia dado certo, mas ao mesmo tempo errado. Ser feliz e não pagar as contas, basta? A verdade é que eu estava imensamente frustrada.

Então no dia dezessete de agosto de dois mil e catorze, com a ajuda do Silas, meu amigo querido, coloquei Evita (a minha bicicleta) em uma caixa, arrumei meia dúzia de roupas e peguei um avião até Barcelona. Sem planos, sem metas, sem post its, sem estratégias, sem mágoas, sem muito dinheiro e sem respostas.

A única coisa que eu sabia era: eu precisava dar um tempo.

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