Porque viajar de bicicleta?

Esses dias, conversando com um amigo e contando um pouco sobre a viagem, ele me perguntou “Mas porque viajar de bicicleta? O que pega afinal? É a superação da distância? O desafio físico? Ou o quê?”. Fiquei um tempo pensando na resposta e me dei conta de que talvez eu não tenha uma explicação 100% racional do porquê gosto, também, de viajar de bicicleta. Acho que as coisas que realmente gostamos não temos explicações muito racionais para elas. Por isso, talvez, eu viaje de bicicleta só, e simplesmente só, porque gosto e nada mais.

Mas durante a viagem, que dessa vez foi mais longa, pude perceber algumas coisas que talvez antes eu não soubesse. Um dia passeando sobre Amsterdam me dei conta de que talvez eu nunca mais compre um pacote de viagens. Nunca fui muito fan de grupos e guias de turismo, mas acho interessante a possibilidade que a bicicleta te dá de ir aos lugares e não ser levado. Em um modelo de turismo tradicional, tudo é pronto e feito para você ver o que querem que você veja. Com uma bicicleta, você precisa ir lá e ver e só nesse caminho você já encontra mil outras coisas para serem observadas. Cada dia mais eu sou fascinada por isso, os espaços invisíveis que dão nome a esse blog. Acho muito legal a possibilidade de ser apresentado ao todo, mesmo que o todo não seja turisticamente tão bonito. Porque nos final das contas, o que não é turisticamente bonito, é o que acaba sendo interessante para mim.

Gosto cada dia mais da necessidade de utilidade que uma bicicleta te impõe. Por isso no alforje você precisa levar só o que é necessário. Caso contrário, terá que carregar peso inútil. Esqueça as mil combinações que você leva na mala só para fotografar o “look do dia” e postar no face depois. Em cima de uma bicicleta você precisa de roupas confortáveis para pedalar, roupas quentes e leves para te esquentar, tudo no menor volume possível. Nada de 5 pares de sapatos. Ou quatro tipos de biquínis. Na bicicleta é somente o necessário. Confesso que em um ponto da viagem, depois de tanta roupitcha de ciclista (entenda-se shorts de lycra e camiseta) senti um pouco de falta de ter alguma coisa de menina, sabe? Ainda estou com o cabelo curto, então aquele monte de roupas de esporte estavam meio que me deixando com uma cara de moleque e eu estava me sentindo um tanto mal com isso… Foi em uma Decathlon na França que eu descobri aquelas faixas que você pode usar no cabelo, no pescoço, nos  punhos e onde mais você quiser. Comprei duas e fui colocando na cabeça para conferir um estilo e me sentir um pouco mais arrumada e feminina. Acho que deu certo. No fim, virou marca registrada! E é bom porque não pesa no alforge e dá uma graça né?

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Eu, meu lencinho fashion na cabeça e o “look do dia”

Acho que outra coisa que tem a ver mais com a bicicleta do que com viajar de bicicleta é o fato de que, quando estou em cima da minha bicicleta, estou no agora. Me dei conta da dificuldade que eu tenho de viver no agora, quando comecei a pedalar em São Paulo. No começo, obviamente eu tinha muito medo, então prestava tanto a atenção no transito, nos carros e nos ônibus, que quando via, não estava mais distraída com as preocupações de sempre (contas, e-mails, emprego, família, etc.). Estar no agora é quase tão difícil quanto não abrir mais uma aba do seu computador. E lá estamos nós vivendo tudo o que não esta nesse momento, presente. Essa ansiedade que faz a gente desperdiçar o agora é uma discussão pra lá de zen, mas que para mim, cada dia faz mais sentido. Quando estou em cima da minha bicicleta, na maioria das vezes estou preocupada com ou estou curtindo o agora. O resto, o caminho te leva. E isso é maravilhoso!

Embora 1500 km seja uma distância considerável, eu nunca fui fan do ciclismo e da questão atleta, superação física e essas coisas. Confesso que fiquei muito feliz de ter ganho coxas novas depois da viagem, mas não é isso o que me movimenta. Amo as endorfinas (quem não ama?), mas quando estou em cima da bike não me sinto competindo com a estrada. Muitas vezes não passei dos 15 km por hora, para desfrutar MESMO do caminho e de todas as coisas bonitas que ele te proporciona. “Devagar é que se vai longe”, é mais ou menos esse o meu lema com a Evita. Nesse aspecto, posso dizer que programei um pouco mal a viagem. A média de quilometragem do dia era em torno dos 80/100 km. Mas acho que para uma cicloviagem o ideal é manter no máximo 60 e aproveitar mais as cidades por onde você passar. Nem sempre elas são convidativas e um fato é: quanto menos você pedala, mais dinheiro você gasta, mas é sempre legal ter mais tempo, não correr e não só pedalar.  Fiz a viagem com um “budget” bem reduzido… Mas depois me arrependi de ter passado por tantas vinículas na França e não ter entrado em nenhuma para ver como era e fazer uma degustação. Também, pelo mesmo motivo não vi o Museu Teatro Salvador Dali em Figueres, na Espanha.

Por fim, me chama o fato de que a bicicleta em uma viagem testa e muito a sua capacidade de adaptação. Muitas vezes você não tem ideia de onde vai dormir, nenhuma reserva te aguarda e você tem que chegar na cidade ou no lugar que o sol te permitir e ver qual é que é… No começo isso foi bem difícil para mim, principalmente no quesito “acampamento selvagem” o qual vou falar especificamente. No entanto, só pelo fato de você dormir cada dia em uma cidade diferente já é em si um teste para você lidar com diferentes ambientes e pessoas. Eu gosto bastante disso. Acho que quando você perde as raízes no mundo, ou a sensação confortável de estar em uma casa, você vai para dentro de você buscar onde essa sua “casa” fica.

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