Caixas, aeroportos e plástico bolha: a arte de embalar uma bicicleta

Só a caixa ocupava metade da sala. Então coloquei o sofá em pé e afastei alguns móveis para que ficássemos devidamente acomodados: eu, Evita e meu querido amigo Silas. Em uma sala com menos de 20m²também acomodei alguns metros de plástico bolha, fitas, pedaços de plástico, enquanto o Silas, com a precisão de um cirurgião experiente, tirava algumas chaves, outras fitas e um saco de enforca gatos do seu alforje.

Nunca fui muito fan de parafusos, engrenagens e afins, então, por razões óbvias, se alguém me pedisse para desmontar uma bicicleta e depois coloca-la em uma caixa, eu não saberia nem por onde começar. Mas ainda bem que existem os amigos e eu tenho a sorte de ter um que, ao contrário de mim, é muito fan de parafusos, engrenagens, fiações e ainda teve a maior paciência do mundo para me explicar como desmontar e colocar Evita em uma caixa para enfiá-la em um avião.

Vale a observação de que boa parte das companhias aéreas possui políticas próprias para o transporte de bicicletas. Portanto, se você vai viajar de avião e quer levar sua bicicleta, vale a pena checar qual a política da companhia antes mesmo de emitir a passagem. Com exceção da Lufthansa, as demais companhias exigem que a bicicleta embarque embalada em uma caixa apropriada (algumas companhias como a Ibéria, por exemplo, chegam a exigir metragens específicas para a embalagem).

Sinceramente acho que vale a pena considerar o custo benefício de emitir uma passagem por uma companhia que não exige que a bicicleta seja embalada. Além de poupar trabalho, poupa dor de cabeça, porque só o fato de você poder ir pedalando para o aeroporto (ou ainda utilizar o metrô, um trem ou um ônibus para isso) já facilita e MUITO a canseira que é transportar um meio de transporte!

O que a minha viagem me mostrou foi: embalar uma bicicleta no seu país é fácil e com certeza você vai ser capaz de fazer uma embalagem top para proteger sua bicicleta contra qualquer ataque nuclear.

No entanto, lá fora, às vezes é complicado encontrar uma simples caixa de papelão e pelo menos em Amsterdam eles queriam me cobrar um valor absurdo por ela. Para se ter uma ideia, em uma loja de bicicletas eles pediam 15,00 euros por uma caixa, e no Schiphol (aeroporto), uma caixa de papelão custava a bagatela de 23,00 euros, ou seja, aproximadamente R$ 69,00. Se você acha justo desembolsar seu rico dinheirinho para gastar tudo isso em uma caixa de papelão, bom, isso é uma opção. Eu sinceramente não acho e claro que eu não gastei 69 contos em uma caixa. Tive a sorte a meu favor e acabei encontrando uma na rua!! Se você não estiver com o universo conspirando ao seu favor, caminhe por algumas quadras, peça ajuda em lojas de móveis… Com um pouco de disposição, eu sempre acho que a gente resolve qualquer coisa.

encontro caixa 3

Eu muito feliz com a minha caixa achada na rua!

Mas voltando ao assunto desmontagem, antes de começar essa saga, o pessoal da bicicletaria Nobre me cedeu gentilmente uma caixa de papelão e ainda por cima me deram um suporte de quadro para o encaixe da roda da frente (que foi super útil) e alguns pedaços de plástico, tipo EVA para proteger o quadro. Sou muito fan dessa bicicletaria, não só pelo trabalho deles (que é impecável), mas pela amizade que acabou surgindo entre eu e os donos, o Otavio e o Maurício. Como a bicicletaria é caminho de boa parte das minhas empreitadas pela cidade, sempre rola um trim trim e alguém gritando atrás do balcão “Ô Helga!”. É bem divertido!

A mecânica de uma bicicleta é um mundo, cheio de palavras incríveis do gênero “canote”, “pedivela” e “gancheira”, as quais um dia vou fazer um poema, eu juro! Mas, depois que você entende poucas coisas (mesmo sem saber os nomes), passa a se tornar um mundo menos assustador. Se eu embalei uma bicicleta a ponto dela atravessar um continente e voltar sã e salva para o Brasil, acho que qualquer pessoa pode fazer isso.

O que eu fiz com a ajuda do Silas foi basicamente:  (i) retirar o guidão e prendê-lo no quadro com alguns “enforca gatos” (vulgo fitas hellermann, com certeza um item de sobrevivência necessário para qualquer cicloviagem); (ii) retirar a roda da frente e prender o quadro com um suporte de plástico (você pode tentar conseguir isso em uma bicicletaria), mas isso não é imprescindível para embalar sua bike), (iii) retirar banco e bagageiro – esses eu mantive soltos mas minimamente encaixados com roupas e outras coisas que enfiei na caixa; (iv) colocar fita crepe para proteger a parte superior do garfo, onde é encaixado o guidão; (iv) murchar os pneus; (v) retirar a gancheira com o câmbio, proteger bem com plástico bolha (ou qualquer outro plástico que você tiver) e alguma cobertura de papelão e prendê-lo na parte interna do quadro); (vi) retirar os pedais.

evita embalada evita para partir

Evita antes e depois do processo de desmontagem – faltava só o câmbio!

Outra dica super válida que o Silas me deu: mantenha todos os parafusos presos no quadro ou estruturas. Nada de fazer saquinho para guardar os parafusos, porque são muitos e você se perde depois na hora de montar. Tirou a peça, deixe o parafuso lá. Simples como isso.

Não retirei as rodas de trás para ajudar a proteger o quadro, mas alguns ciclistas às vezes fazem isso… Vai de cada um!

Sobre o câmbio, tanto o Silas, quando o Fábio Fes (que é outro ninja na arte de embalar bicicletas e me ensinou muitas coisas no último encontro do Clube de Cicloturismo), é importante tirá-lo da bicicleta e protegê-lo bem. Não só por ser uma peça fundamental na engrenagem toda, mas porque ele fica exposto fora do quadro, então uma batida forte na caixa pode eventualmente entortá-lo e te dar uma bela dor de cabeça.

Não deixei nenhuma das partes da bicicleta solta e considero que os enforca gatos são mesmo um item essencial, que você deve ter sempre com você (outra lição preciosa que o Silas me deu). Enforca gatos servem para tudo, curam quase todos os males da mecânica e ajudam muito em situações de perrengue. Há relatos que câmaras se mantiveram dentro do pneu por mais alguns quilômetros e gancheiras preservadas por conta da arte da gambiarra com uso de enforca gatos. Recomendo super e já tenho alguns da bolsa. Em todo lugar que eu vou, eu levo mesmo… Enforca gatos estão para um ciclista na mesma proporção de que um clip e um chiclete serviriam para o Mac Gyver.

A verdade sobre a arte de embalar uma bicicleta é: quanto menos você inventar moda e materiais e mais criativo você for para protegê-la, melhor.  Com roupas sujas e o isolante térmico do camping você já tem uma boa cobertura de proteção, isso significa que você não precisa necessariamente de plásticos bolha para transformar sua bicicleta em uma múmia, por exemplo. Uma caixa, enforca gatos e fitas são o material essencial, o resto vai na gambiarra e improviso mesmo.

Eu como toda pessoa que tem uma relação de amor com sua bicicleta, quase tricotei um casaco de lã para a Evita, depois de ter a noção de que ela seria colocada em um compartimento de bagagens frio e sujo de um avião… Estou brincando, mas tenho noção da preocupação que um ciclista tem com a sua bicicleta. Mas fique tranquilo, no final das contas é só uma bicicleta e embalando com cuidado, eu “agarantio”: vai ficar tudo bem!

Das partes mais difíceis da arte de embalar uma bicicleta, só digo que os pedais serão mais complicados, principalmente se forem retirados por nós, mulheres. Essa é a única peça que demanda um pouco (muito) de força física e talvez você precise de ajuda (eu preciso!) Note, que para encaixar os pedais existe o lado certo de cada um (eu não sabia disso!) e você não precisa de uma chave de pedal, tanto para retirá-los como coloca-los. Um pouco de jeitinho, força e uma chave allen, tá tudo resolvido!

Após devidamente embalada, a caixa da Evita ganhou uma decoração especial, só para lembrar os moços do aeroporto que se tratava de uma bicicleta FRÁGIL que deveria ser transportada com muito carinho e amor.

caixa recado

Só para lembrar de ter cuidado! ❤

Depois de embalada, a verdade é que você tem uma caixa pesada ou um verdadeiro trambolho para resolver como levar para o aeroporto. Ai vale tudo: taxi, taxi até os pontos de partida do Airport Bus Service (se você estiver em São Paulo)+ ônibus ou carona dos amigos ou da família. Por isso eu digo: considere isso na hora de comprar o ticket, pois o gasto com o transporte pode não compensar…

feliz com uma caixa

Prontas para voltar! Com direito a bronzeado ridículo de quem usou bermuda o mês inteiro!

Dependendo da passagem que você comprou você tem um limite de peso para a bagagem. Em geral, você pode levar duas peças de 32 kilos mais uma bagagem de mão. Ou seja, sua caixa com a sua bicicleta pode pesar até 32 kilos, se você não quiser pagar excesso de bagagem.

Outra dica que eu acho bacana é: verifique a política para o transporte de bagagem da sua companhia. Caso ela não tenha uma taxa específica para o transporte especial de bagagem, sua bicicleta será cobrada nas condições de bagagem normal, isto é, caso sua caixa e demais bagagens não ultrapassem 32 kilos cada, você não esta sujeito a pagar nada a mais por isso.  E se a Companhia levou direitinho sua bicicleta sem cobrar nada, não deixe que ela invente de te cobrar algo na volta.

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