GPS: ter ou não ter eis a questão

 “A vida segue acontecendo nos detalhes, nos desvios, nas surpresas e nas alterações de rota que não são determinadas por você.”

                                                                                               (Martha Medeiros)

Parti do Brasil feliz com uma rota baixada em arquivos de GPS que seria suficiente para me levar de Barcelona até Amsterdam sem grandes chances de me perder muito. Ou pelo menos era isso o que eu imaginava.

Como eu iria utilizar um smartphone como GPS, baixei um aplicativo específico que me permitiria navegar off-line (“Motion X GPS”), comprei uma bateria extra em um dos xing lings da Avenida Paulista e gastei 60 dinheiros em um suporte para acoplar o iphone na bicicleta e tornar mais fácil a navegação (em seguida eu descobri que você pode fazer um suporte desses, gastando bem menos assim). Depois de adquirir essa parafernália toda, eu me sentia absolutamente preparada para enfrentar os caminhos sem grandes surpresas e, por razões óbvias, nada disso aconteceu.

Para mim, ter um smartphone era a única coisa que eu precisava para tirar boas fotos e me localizar durante a viagem. Além de ocupar pouco espaço, eu tinha para mim que esse tipo de equipamento era o suficiente. Pode ser que muitos fãs do Steve Jobs não concordem, mas em termos de cicloviagem, resumo minha experiência no seguinte: um iphone é uma espécie de poodle, quando você precisa de um dobermann. Sim ele é bonitinho, sim ele é charmoso, mas sim, na hora que o bicho pega, a bateria já acabou ou esta próxima bem próxima disso! Mesmo com uma bateria extra eu não conseguia navegar pelo GPS por mais de 1 hora.  E não há nada mais angustiante do que você perdido, depois de muitos quilômetros pedalados, encontrar com uma mensagenzinha dizendo “Menos de 10% de bateria”. É um tipo de tortura moderna isso da qual não quero mais fazer parte.

Se você estiver determinado a fazer uma cicloviagem esperando que seu smartphone funcione como uma máquina fotográfica e um GPS, eu sugiro que você leve um alforje inteiro só de baterias extra. Outra sugestão é encontrar um dínamo gerador de energia, que infelizmente, eu nunca consegui comprar.  Caso contrário, bem vindo ao fantástico mundo dos viajantes perdidos!

Perder-se talvez seja uma das melhores e das piores experiências de uma cicloviagem. É preciso encarar com humildade o fato de que não temos o controle sobre os caminhos e que somos vulneráveis a todos eles. Muitas vezes estar perdido pode significar um estresse bem grande, principalmente se você esta no meio do nada, vendo o sol se pôr e se sentindo forçado a acampar em um local o qual você não sabe nada e não se sente seguro. Mas perder-se também pode significar conhecer lugares maravilhosos, rotas novas e paisagens que você nunca imaginou ver com seus próprios olhos. Perder-se pode significar encontrar pessoas muito dispostas a te ajudar que fazem encher seu coração de vida.

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(Às vezes nos deparamos com pessoas muito generosas como foi o caso da senhora francesa que não nos deixou partir sem ter a certeza de que sabíamos o caminho, o casal de holandeses que nos deu dicas para seguir por Amsterdam e a família de belgas que nos indicou um pouco sobre os caminhos na região de Avignon).

Meu plano de ter uma rota toda planejada para GPS foi por água à baixo quando me dei conta de que não tinha um equipamento adequado. Mas nada disso me impediu de completar a viagem e de aprender muito com ela. Pelo fato de não ter pedalado pela rota que havia predeterminado, conheci rotas específicas para bicicletas realmente lindas, que sequer eu imaginava que existiam. Por ter me perdido, encontrei pessoas que me acolheram e me permitiram acampar em seus jardins, me mostrando sobre uma solidariedade que eu sequer imaginava que existia no mundo. E por seguir sem um GPS ultra mega pró super, sinceramente, eu não posso dizer que me arrependo.

Penso que ter um bom equipamento de navegação é importante e muito eficiente para te ajudar a encontrar rotas e te ajudar quando você se sente realmente perdido. Mas ele não é imprescindível. Desde que o mundo é mundo, a arte da navegação é feita através de mapas e talvez você não precise gastar tanto dinheiro com um equipamento se simplesmente estiver disposto a se aventurar por eles.

Muitas vezes eu demorei tempo para encontrar as rotas que buscava, já que eu havia me planejado para pedalar, todas as vezes que eu pudesse, por uma rota específica para bicicletas.  Com certeza, se eu tivesse um equipamento de GPS eu teria poupado um bom tempo e muitas perguntas que fiz aos outros viajantes que encontrei. Em compensação, por abrir mão desse tipo de tecnologia, tive a oportunidade de, além de aprender um pouco de navegação, deixar que os caminhos me levassem e ao mesmo tempo me deixei a aprender com eles.

Penso que o ideal é juntar tecnologia com conhecimento. Por isso hoje eu acho que conhecer um pouco de navegação para uma viagem de bicicleta é quase tão essencial quanto ter o melhor equipamento de navegação do universo.

Eu sou do tipo de pessoa que não sabe direita e esquerda (eu sempre penso na mão do relógio!), se pego um mapa, não sei nem por onde começar e tenho uma leve fama por ser bem desorientada. Por isso não pense que foi super tranquilo estar em quatro países diferentes, onde nem sempre eu conseguia me comunicar em inglês e precisava de orientação. Também não pense que foi tranquilo me dar conta de que um Garmin custava cerca de 300 euros (o modelo mais simples) e, quando estava viajando, me segurei muitas vezes para não cometer uma loucura com um cartão de crédito em uma Decathlon. Lidar com mapas, pessoas e caminhos foi um grande aprendizado para mim.

Na medida em que fui me adaptando aos mapas, também fui aceitando as limitações do meu equipamento então eu só ligava o GPS quando estava confusa com relação ao caminho e com isso segui em paz. É verdade que algumas fotos ficaram só na retina também porque a bateria estava acabando ou prestes a acabar e eu acabei não usando a função máquina fotográfica nesses casos.

Aos poucos também fui acalmando a minha ansiedade urbana de querer saber sempre onde chegar, sem nem saber o caminho direito. Fui vendo que a bicicleta me permitia diminuir a velocidade de tudo e às vezes consegui até desfrutar do fato de estar perdida em lugares tão bonitos, parando na frente de algum rio, comendo um chocolate belga ou mesmo um sanduiche. Talvez por conta disso, o “ponto final” ou a chegada não eram no final a coisa mais importante de tudo. A verdade é que, mesmo sem saber o caminho, quando estamos nele de uma forma ou de outra ele nos mostra a direção. Para as principais coisas da vida, felizmente ou infelizmente, a gente nunca tem GPS.

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