Dinheiro para (ciclo) viajar

                                                           “É melhor viajar bem do que chegar mal”

                                                                                                                     (Buda)

Se você é uma pessoa que tem um desejo enorme de pegar sua bicicleta e viajar por um tempo, é provável que você ainda não tenha feito isso se justificando “não tenho tempo” ou “não tenho dinheiro”. É também provável que, se você vive em uma grande cidade como eu vivo em São Paulo, você esteja convencido de que não tem nem um nem o outro.

Tempo e dinheiro são relevantes, eu também acho, mas não são fundamentais para se viajar. Digo isso porque existem inúmeras formas de se viajar e para todas elas é possível adaptar esses dois fatores (embora nem sempre seja simples). Acho que para viajar necessário mesmo é vontade. O resto (tenha fé) é possível dar um jeito.

Sou do tipo de pessoa que acredita que viajar é um bem necessário e não um luxo e durante toda a minha vida, ou eu tenho tempo ou eu tenho dinheiro (ainda não acertei a fórmula mágica para ter os dois). Então, se eu realmente acreditasse que somente com tempo e com dinheiro é possível viajar, eu sequer tinha saído de casa.

Uma viagem de bicicleta, em tese, pode ser muito barata já que você não precisa pagar para se transportar e dificilmente você vai se entupir de comprar coisas, afinal alforjes são bem menores do que malas e carregando seu próprio peso você entende o real significado de “apenas o necessário”. Em termos gerais, um ciclo viajante não precisa mais do que um local para dormir e descansar bem e comida que o alimente. No entanto, financeiramente isso pode ser traduzido com muitas ou poucas cifras, e quem determina é só você.

Você pode escolher dormir em uma barraca em vez de um hotel ou um hostel, você pode comer comida de supermercado, ou cozinhar sua própria comida em vez de gastar com restaurantes, você pode escolher acampar selvagem ou no jardim de uma alma caridosa em vez de um camping, enfim, opções não faltam. No entanto, se estamos falando de uma ciclo viagem para Europa, cada euro deles, vale três vezes o nosso real, então o que pode parecer barato, na verdade, não é tão barato assim.

O que eu posso te dizer a partir da minha viagem é: simplesmente não converta. Aceite que você levou uma quantidade “x” de dinheiro e que vai sobreviver com ela. Caso contrário, você vai viver eternamente frustrado, até porque uma coca cola pode custar R$ 12,00. Acredite, na Europa o valor das coisas está em pedalar por rotas lindas e sim, elas são de graça!

via verde

Pedalar em um lugar assim, simplesmente não tem preço!

Viajar sem muito dinheiro na Europa também é possível e eu diria que tem lá suas vantagens. No quesito comida, eu não passei fome e nem vontade em nenhum dos supermercados que encontrei por lá. Pelo contrário, queijos e chocolates que custam aqui uma fortuna, são bem acessíveis por lá e eu me deleitei!

Antes de fazer minha viagem, pesquisei um pouco sobre orçamentos e planejamentos e acho que essa é uma das principais questões de muitos cicloturistas, principalmente quando se trata de uma viagem mais longa ou de uma primeira viagem (como foi o meu caso). No entanto, infelizmente, encontrei poucos viajantes que realmente disseram o quanto gastaram para fazer suas viagens ou seus respectivos planejamentos. Um dos bons posts que encontrei falando sobre isso e recomendo a leitura é esse aqui.

Depois da viagem eu entendi que o tema “grana” e “viagens de bicicleta” não são apenas um tabu. Percebi que para cada um tem um jeito de viajar, portanto, dizer que você gastou x ou y para viajar pode ser o parâmetro errado dependendo do que a pessoa acha que necessita ou valoriza em uma viagem. E pior, muitas coisas ela só vai descobrir que necessita ou valoriza quando estiver viajando.

Eu me descobri em muitos aspectos na questão financeira até porque eu viajei com um budget bem reduzido. Descobri, por exemplo, que eu pago 20 euros para tomar um banho quente em um chuveiro de um camping qualquer, no entanto, conheci gente que fica tomando banho de caneca, de rio ou fica sem tomar banho numa boa. Em compensação eu não pago nem um euro por um pacote de bolacha recheada e conheci gente que depois de muitos quilômetros pedalados uma bolacha recheada é quase deus e pagaria muito por uma iguaria dessas. Por isso vai de cada um.

Eu me programei para gastar 15 euros (um pouco mais do que R$ 50,00) por dia e ainda levei 300 euros para comprar equipamentos para a bicicleta. Ou seja, planejei gastar em torno de 750 euros. Sinceramente deu para fazer muita coisa (incluindo luxúrias com cervejas trapistas na Bélgica e dormir algumas noites em camas de hostels). No final, ainda sobrou dinheiro para comprar uns chocolates do free shop para a família.

Para quem deseja viajar para a Europa fica aqui o preço médio de algumas coisas para se ter uma ideia na hora de montar seu planejamento:

– Camping: o mais caro que paguei foi 23 euros e o mais barato 7 por noite

– Hostel: em média 25 euros/ noite

– Hotel: 60 euros/ noite

– Bed and breakfast: tem de tudo, mas em geral cobram entre 40 e 60 euros.

– Barraca: 23 euros

– Sleeping bag: 20 euros

– Alforjes: 120 euros o par. Ortlieb podem ser bem mais caros.

– Lata de atum: 3 euros a com azeite de oliva. Mais barato do que no Brasil!

– Água: de graça e potável na maioria dos locais por onde você passar e se pedir ninguém vai te negar/cobrar por isso.

– Prato do dia em restaurantes: 10 euros.

Em muitos blogs de viajantes eu leio como “dica para viajar barato” utilizar a rede do couchsurfing ou do warmshowers como forma de economizar. Particularmente sou bastante contra esse tipo de pensamento, pois acho que o objetivo dessas redes é a troca e não o favor. E isso vai muito além do dinheiro.

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Meus adoráveis warmshowers! Pessoas que levo no coração que me ensinaram muito!

Já hospedei e sempre que posso hospedo ciclistas em casa e da mesma forma utilizei bastante o warmshowers durante a viagem. Hospedar ou ser hospedado não significa ser ou estar em um “hotel/ hostel for free”. Hospedar ou ser hospedado significa se adaptar, estar disposto a compartilhar, ajudar, aceitar costumes e regras bem diferentes dos seus e muitas vezes também dar. Se você esta disposto a aprender com outras pessoas, por favor, faça parte dessas redes. Se você simplesmente não esta disposto a pagar para dormir, bom, existem acampamentos selvagens, bancos de praças e outros lugares para você passar a noite também. Só não espere que as pessoas sejam obrigadas a te receber e se adaptar a você só porque você esta sem grana para pagar.

Aprendi muito sobre dinheiro nessa cicloviagem, pois entendi muito sobre minhas reais necessidades, meus confortos e minhas regalias. Aprendi muito sobre o que eu considero “viajar bem” e talvez isso passe longe de hotéis luxuosos e restaurantes caros como condição. No entanto, isso é a experiência de cada um. Não tem receita de planejamento ou dinheiro no mundo que seja capaz de responder isso, senão a sua própria experiência de viagem. Por isso eu digo, se você acha que não tem tempo ou dinheiro, simplesmente pegue sua bicicleta e viaje.

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