Companhia para viajar de bike

                                    “Nunca vá a viagens com alguém que você não ama”

                                                                                  (Ernest Hemingway)

Depois que resolvi pedalar de Barcelona até Amsterdam e contar para as pessoas dos meus planos, primeiro vinham as perguntas básicas do gênero “quando, onde e como” e na sequencia as pessoas arregalavam os olhos para me dizer “mas você não vai sozinha, vai?”, e a minha resposta era obviamente “não”.

Uma mulher viajando sozinha de bicicleta para mim também era uma ideia assustadora. Até o dia que eu precisei testar isso na prática (ainda vai ter post sobre isso).

A ideia inicial da viagem era ter companhia, então decidi aproveitar a volta ao mundo de um cicloviajante que estava justamente na Europa, para pegar carona na empreitada dele e não enfrentar o medo da solidão e de estar sozinha com uma bicicleta na estrada. A ideia parecia muito boa, pois já nos conhecíamos e, além da paixão pela bicicleta, tínhamos muito em comum e nos demos muito bem quando ele esteve no Brasil.

Tinha tudo para dar certo, mas… Não deu! Acabei atravessando a Bélgica e parte da Holanda apenas com a companhia da Evita minha bicicleta, sem nunca ter viajado sozinha com uma bike antes.

No quesito companhia de viagem, posso dizer que aprendi bastante e penso que se tivesse refletido algumas coisas, talvez teria evitado vários perrengues. Acho legal deixar bem claro que uma das lições mais importantes que aprendi nisso tudo é: “o inferno não são os outros” e escolher uma boa companhia de viagem tem muito mais a ver com se conhecer bem, do que esperar um parceiro ideal.

De toda forma, em especial se você quer fazer uma viagem autônoma acompanhada (o), acho legal refletir sobre alguns aspectos antes de formar uma parceria e enfrentar a estrada.

1. Propósitos de viagem

Alinhar os propósitos de viagem é um dos principais pontos que fazem muita diferença na hora de encontrar uma boa companhia. Penso que se os objetivos de uma viagem são muito diferentes, as brigas e desentendimentos devem surgir com mais frequência.

Eu queria percorrer de bicicleta 1500 km da Europa, meu amigo, o mundo inteiro. Embora o objetivo “viajar de bicicleta” fosse um denominador comum entre a gente, existe muita, mas muita, diferença mesmo entre os objetivos de uma viagem de volta ao mundo e os objetivos de atravessar três países em um mês pedalando.

Isso na prática significa que meu amigo se viu muito irritado diante de um cronograma de viagem onde estávamos presos às distâncias e ao tempo, por exemplo. Viajando há dois anos pelo mundo ele havia se desacostumado a ter dia e hora para chegar em algum lugar, mas para a “minha” viagem isso era uma condição.

Eu, do meu lado, me vi emputecida tendo que me adequar às condições financeiras de uma viagem longa, sem patrocínio e sem data para acabar. Enquanto eu estaria ali apenas por um mês e me permitiria desfrutar de um vinho a mais, ou uma comida menos barata do supermercado, para ele, isso tudo custava bem mais caro.

Conversar resolve muitas coisas, é verdade. No entanto, nem sempre rola conversa quando estamos em um ambiente muito diferente do nosso, cansados, com fome ou com frio. Discutir a relação a cada quilômetro e nessas condições (que certamente vão aparecer no seu caminho) é uma tarefa árdua e que eu não recomendo para a viagem de ninguém. Converse muito durante o planejamento da viagem e se der tente fazer viagens menores com seu (sua) parceiro (a) para ver se estão mesmo falando a mesma língua.

2. Se conhecer viajando

Uma viagem é sempre cheia de situações inusitadas que a gente não passa no dia a dia. Nem sempre são situações super bacanas e na maioria das vezes a gente não sabe como vai lidar com elas.

Quando estávamos na fronteira da Espanha com a França, chegamos a um pequeno povoado e não encontramos lugar para dormir. Meu parceiro pediu para acampar no corpo de bombeiros que também não nos permitiu. A saída foi acampar em uma torre abandonada no meio das montanhas. A princípio não fiquei muito confortável com a ideia, mas nunca havia passado por aquela situação antes então decidi experimentar. Para o meu companheiro de viagem, aquela torre parecia o um oásis no meio do deserto.

Mas para mim, era uma situação absolutamente nova e desconhecida. Na medida em que foi ficando escuro fui ficando em pânico a ponto de chorar e tremer compulsivamente e meu amigo não ter ideia do que fazer comigo, já que pegar as bikes e pedalar a noite não era a melhor solução.

Eu nunca havia acampado no meio do nada no Brasil e não consegui pregar o olho durante a noite toda. Na manhã seguinte eu era um zumbi e pedalar parecia impossível. Depois 36 km, pedi para parar. Eu nunca havia me sentido tão exausta na vida.

Hoje, eu só acamparia selvagem em um lugar que eu me sentisse tranquila, mas como eu nunca tinha feito isso antes na vida, eu sequer sabia o que era me sentir tranquila em uma situação como essas.

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(A torre abandonada ou o acampamento do terror: olhando agora não parece nada assustador)

A gente nunca se conhece totalmente, eu acho. Mas penso que em algumas situações mais extremas, a falta de autoconhecimento pode se transformar em uma bomba, em especial quando você ainda tem mais alguém na parada.

Quando passei por isso meu amigo olhava para mim inconformado pelo fato de eu só me sentir segura dormindo atrás de portarias, grades elétricas, portões elétricos e trancas, como ele me via fazer aqui em São Paulo.

Para ele, dormir seguro é embaixo da lua e das estrelas, com o barulho dos grilos e o cheiro do mato.

Longe dos medos e conhecendo um pouco mais de mim, dá para olhar para traz e dar risada. No final das contas ele até que tinha muita razão.

3. Ritmos

É difícil encontrar alguém que pedale exatamente no mesmo ritmo que você. Por isso, ter companhia para uma viagem requer paciência, em especial, se você é a pessoa que pedala mais rápido.

O ideal é tentar achar uma distância e uma cadência que mantenha as duas partes animadas e isso a gente só sabe testando. O que não vale é ficar irritado e deixar o outro pedalando sozinho. Se esse for o seu caso, acho que vale a reflexão “será que você quer mesmo ter companhia para pedalar?”.

4. Diferenças

Não gosto de sexismo, no entanto, eu penso que é melhor assumir e aceitar as diferenças do que ficar inventando que somos iguais. Viajei com um homem e acho que homens e mulheres possuem várias diferenças quando o tema é cicloviagem, que vão desde os detalhes no modo de preparar a comida ou ajeitar a barraca, até o simples fato de fazer xixi.

Viajar com o sexo oposto requer compreensão das duas partes. E dependendo do grau  da aventura, é melhor que os dois estejam cientes e bem preparados para conciliar as coisas.

Para citar um exemplo, acho que eu, como qualquer mulher, não gostaria de passar muitos dias sem tomar banho, em especial no seu período menstrual… Se as condições da viagem forem “sem infra”, por exemplo, essa é uma das diferenças a se considerar.

 5. Divisão de tarefas

Sempre que posso eu acompanho e assisto palestras e vídeos de casais que viajam de bicicleta, porque adoro esse tema. E diversas vezes já ouvi que as tarefas de mecânica e levar peso, muitas vezes, ficam a encargo do parceiro.

Durante a viagem essa foi outra reflexão que eu tive e acho que vale a pena considerar. Em uma cicloviagem às vezes nos deparamos com mais cansaços em um dia e imagine que justo nesse dia o pneu da sua companheira é o que fura mais vezes. Sua companheira, porque é menina, obviamente não se aventura na mecânica. Vamos falar a real, isso é motivo para estressar qualquer ser humano e não sem razão.

Acho que no quesito mecânica é muito importante que os dois saibam fazer e dividam as tarefas ao longo da viagem para não sobrecarregar o outro. Da mesma forma, penso que o peso do material em comum como barraca e demais utensílios do camping podem ser divididos de uma forma que um só não fique responsável por levar todo o peso.

Dividindo as tarefas, a viagem pode ficar mais leve literalmente, por isso acho legal considerar isso entre você e seu companheiro (a).

Ceder, compartilhar, dividir, se colocar no lugar do outro, ter paciência, saber rir, estar aberto para as diferenças e também para o perrengue, aceitar suas limitações, aprender com as do outro… Se você quer companhia para viajar, veja se antes de tudo, você esta disposto a ser companhia.

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