O que aprendi sobre generosidade viajando de bicicleta

“Cada uno da lo que recibe.Y luego recibe lo que da. Nada es más simples, no hay otra norma: nada se pierde,Todo se transforma”

(Jorge Drexler, “Todo se transforma”)

Nimes, uma das cidades mais bonitas que eu conheci na França, havia ficado para trás. Seguíamos sentido norte, rumo à região de Avignon, quando começamos a sentir a presença de um vento frio, que ia soprando cada vez mais forte na medida em que avançávamos. Eu nunca tinha ouvido falar sobre o vento Mistral, até dar de cara com ele.

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Nimes e as ruínas do império romano (a arena acima foi construída em 27 A.C.). 

Para quem não sabe o que é esse vento, com alguns cliques no Google, você vai descobrir que se trata de um vento catabático (eu também desconhecia essa palavra…), que transporta ar de alta densidade de uma elevação descendo a encosta, devido à ação da gravidade. Mas isso não chega a parecer algo para se preocupar certo? Então você continua lendo e vai achar que Mistral quer dizer “magistral”. E, esse vento tem justamente esse nome porque sua velocidade média (eu disse MÉDIA) é de 50 km/h.

Eu nunca havia pedalado um dia inteiro, com um vento tão forte, soprando contra. Mesmo pesando em torno de 100 kilos, eu e Evita algumas vezes levantávamos e não foi fácil manter o nem o equilíbrio físico, nem o equilíbrio emocional diante de uma situação dessas. Um vento como esse te esgota. É como empurrar uma parede invisível com a bicicleta.

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Pedalando contra o vento, sem lenço, sem documento (dá uma olhada nas árvores da foto!)

E como pedalar parecia inútil, às vezes descia da bicicleta e gritava “seu vento de merda!”. Era a minha forma de não deixar que o vento me derrubasse e, ao mesmo tempo, aceitar resignada que minhas pernas não venceriam a sua força.

Me encanta viajar de bicicleta pela possibilidade de estar mais próxima aos espaços e também a natureza. Mas até então, eu nunca havia vivenciado nenhum fenômeno que me fizesse entender que a gente é mesmo um nada diante da força dela. Mistral era um vento feroz que me fazia sentir uma folha seca prestes a levantar voo. E tudo o que eu podia fazer diante dele era olhar para o chão, tentando me equilibrar e seguir pedalando, aceitando que aquele vento de merda era mais forte do que eu, e tentar vencê-lo era só um jeito de ficar mais cansada.

O vento reduzia consideravelmente nossa velocidade, então decidimos pegar um caminho indicado no Google maps que nos mostrava uma rota ciclável e, que, aparentemente, encurtaria nossa chegada até Bollene, onde pretendíamos acampar. A rota ciclável, no entanto, era uma rota de pedregulhos, bem imprópria para bicicletas carregadas como as nossas. Foi um show de pneus furados. Me lembro que quando furei meu terceiro pneu, vi minha latinha de cerveja que eu havia guardado para antes do jantar voar da bicicleta e estourar no chão.  Nesse momento eu pensava comigo: “vou chamar isso de azar…”.

O sol estava se pondo, então meu companheiro, me sugeriu que acampássemos ali mesmo. Ia ser mais uma noite mal dormida, sem um banho muito descente, mas estava tão cansada que já não fazia tanta diferença. Antes mesmo de tirarmos a barraca do bagageiro, começamos a ouvir tiros e patos se lançando ao céu. Estávamos em uma área de caça e acampar ali certamente não seria uma boa ideia.

Seguimos mais um pouco e avistamos uma torre de alta tensão indicando que estávamos próximos a uma estrada. A ideia era chegar até ela, trocar os pneus e seguir para lugar que nos permitisse passar a noite. Eu não conseguia mais organizar meus pensamentos, tamanho era o cansaço. Mas aceitei pedalar, porque era a única coisa que podia fazer.

Na estrada havia uma enorme plantação de girassóis e duas casas. Tínhamos pouco tempo de sol ainda então resolvemos arriscar e pedir um lugar no jardim daquelas pessoas para colocar nossa tenda.

A reação da primeira senhora que nos atendeu, atrás de um muro um pouco assustada, foi exatamente a que eu esperava. Ela não nos deu permissão sequer para acampar em um puxadinho próximo a casa, onde ficavam guardados os tratores. Eu pensava que se estivesse no lugar dela, talvez não deixaria também, afinal éramos dois estranhos pedindo para acampar fora dos seus muros.

E eu vinha de um lugar onde as pessoas se protegiam por muito menos. Em vidros insulfilmados, grades, portarias, cercas elétricas, seguranças. Quem não conhece isso vivendo em São Paulo? Que medo é esse que a gente tem do outro?

Mas eu sempre estive no mesmo lugar da mulher protegida pelos muros, então eu não podia julgá-la, eu não podia culpa-la. Ela nem sabia o que estava por trás daquele dia.

Tentamos a outra casa então, sem muita esperança, já que estava escurecendo. Eu já estava começando a trabalhar minha cabeça para mais uma noite que eu ia deitar na barraca e os olhos iriam se esquecer de fechar.

Quando um senhor francês de cabelos brancos e aproximadamente uns 50 anos abriu a porta, eu expliquei de um jeito muito mal falado o que se passava. Sem me entender muito bem, ele apenas me disse “vous êtes le bienvenu!”, depois de nos  perguntar o que precisávamos e se teríamos comida para passar a noite. Por último, ele sorriu e nos disse “vocês podem usar a piscina e aproveitem a lua”.

“Vous êtes le bienvenu” foi como uma injeção de ânimo após um dia extremamente cagado. E eu não consigo traduzir melhor essa frase do que um tremendo alívio. Mas ao mesmo tempo, uma enorme confusão. Afinal, aquela pessoa que cedia o jardim da sua casa, nunca havia nos visto antes, sequer tinha qualquer referência sobre nós, mal entendia o que queríamos dizer e tinha diante dos olhos dois ciclistas sujos e cansados. Mas mesmo assim ela era capaz de nos dizer “sejam bem vindos”? Aquilo era algo novo para mim.

Jean Luc, esse simpático senhor, era um músico aposentado que vivia com sua esposa em meio a uma enorme plantação de girassóis. Na manhã seguinte nos presenteou com um café da manhã extraordinariamente francês: café, baguete, manteiga e uma geleia de figo feita pela sua companheira que era simplesmente de comer de joelhos rezando. Entre um gole e outro, Jean Luc nos contou sobre a vida, suas aventuras de Jipe no Marrocos, sobre o vento Mistral e muitas coisas as quais nós tentamos entender diante de um francês acelerado. Jean Luc nos auxiliou com uma nova rota, nos levou em sua caminhonete para nos mostrar por onde deveríamos seguir, deixou usar o seu compressor de ar e imprimiu um novo mapa.  Jean Luc foi uma surpresa do caminho e um dos alguns jardins que tivemos a oportunidade de acampar.

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Jean Luc e a família na nossa foto de despedida

Depois dele, em Vienne, em um dia igualmente difícil, conhecemos mais um Jean (que dessa vez era Pierre) e sua esposa Joanne que, além de nos deixar acampar em seu jardim, nos fez um jantar maravilhoso e nos emprestou toalhas, “para que não molhássemos as nossas”, explicava ela ao me dar toalhas limpas e me mostrar o caminho do chuveiro. Jean Pierre e Joanne foram pessoas muito especiais, que não apenas transformaram um dia ruim, mas talvez tudo o que eu conhecia sobre generosidade.

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Jean Pierre e Joanne

Foi assim também quando estávamos a caminho de Belleville, mais ao norte e cruzamos com Tite, um jovem francês que se encantou com a nossas bicicletas carregadas. Ao nos parar no meio da cidade e descobrir que se tratava de uma brasileira e de um el salvadorenho, Tite abriu as portas de um furgão e não parou de nos dar comida até falarmos que estávamos muito carregados e não tínhamos como levar tudo aquilo. Ganhamos chocolates, refrigerantes, salgadinhos, leite em pó e mais um monte de coisas que deixaram as bicicletas bem pesadas. E, por fim, ouvimos a pitoresca historia de um jovem que sonha atravessar a França a cavalo com sua namorada.

Também foi assim, quando acabou minha água a caminho de Utrecht na Holanda e quando bati na porta de uma senhora para pedir, ela não apenas encheu minhas duas garrafas, como me deu suco de laranja e mais um monte de stroopwafel.

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Muito além de água, stroopwafel e sorrisos

Também foi assim quando saindo de Breda parei para carregar meu celular em uma barraca de batatas fritas e ganhei um pacote inteiro delas de um senhor egípcio que me contou uma pouco da sua vida de imigrante e seu orgulho de conseguir montar o próprio negócio depois de passar por tantas dificuldades. “Eu comecei solitário como você deve estar se sentindo agora” dizia ele…

Jean Luc, Jean Pierre, Joane, Tite e cada uma dessas pessoas vou sempre lembrar sem nunca deixar de me emocionar. Acho que cada uma delas, sem saber, me ensinou um pouco mais sobre generosidade. Coisa que eu talvez não aprendesse, se um dia, não estivesse do outro lado do muro. Acho que cada uma dessas pessoas me fez repensar um pouco mais sobre os meus muros que, ao mesmo tempo em que protegem, nos impedem de ver uma parte muito boa desse mundo.

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