O melhor de uma viagem

“O destino nunca é um lugar, mas sim uma forma diferente de ver as coisas”

(Henry Miller)

Eu havia me perdido um pouco para chegar até ali. Amsterdam começava para mim sem muitas placas ou direção. Meu celular já havia pifado há muitos quilômetros atrás, então, tudo o que eu tinha naquele momento eram algumas anotações sobre o meu ponto de chegada que se resumia ao nome de uma rua, onde supostamente um sujeito chamado Paul me aguardava.

Paul era o nono warmshower a me receber. Até ali, havia experimentado dormir em nove casas diferentes e dois jardins e tudo aquilo havia me ensinado muito sobre pessoas e diferentes formas de ver a vida e o mundo.

Quando toquei a campainha de um dos prédios, um sujeito de cabelos brancos com uma mecha vermelha e olhos bem azuis veio me atender. “Oi, eu sou a Helga!” falei meio sem jeito. Ele sorriu, mal apertou as minhas mãos e disse “Parabéns, você completou a viagem! Nós precisamos tirar uma foto disso!” . Paul voou as escadas acima para pegar seu celular e bater uma foto. Eu senti muitas coisas naquele momento, que nem sei muito como descrever até hoje. Acho que até ali não havia caído a ficha de que eu havia pedalado 1520 quilômetros, percorrido quatro países, sobrevivido ao fato de ter sido deixada no meio do caminho… Eu sentia um misto de felicidade e orgulho e ao mesmo tempo era difícil acreditar. 1520 quilômetros agora tomavam outra proporção para mim. Eu saberia enfim o que era percorrer tudo aquilo com pernas, corpo e alma.

Paul tirou então a foto que se tornou uma das minhas favoritas até hoje e que ilustra esse post. Depois ele me ajudou a desmontar os alforjes e subimos com toda a bagagem mais a bicicleta escada acima. Quando colocamos tudo dentro do apartamento, Paul me perguntou se eu queria algo e eu lhe disse que sim, que precisava de um banho! Enquanto tomei o banho, Paul me preparou uma panqueca integral de banana e me serviu uma cerveja preta.

Começamos a conversar e achei estranho o fato de que Paul tremia bastante. Achei que ele deveria ter alguma doença, sei lá, mas continuei contando da viagem. Paul então me interrompeu de um modo bastante brusco para me dizer “Eu preciso contar algo muito sério para você. Eu tenho uma depressão grave, tomo remédios fortes e estou muito nervoso de você estar aqui”.

Em menos de dois segundos a minha cabeça foi a mil. Que tipos de remédios eram esses? E se ele se matasse? Será que ele era um serial killer? O que eu deveria fazer? Deveria mudar de casa? Como eu faria para sair dali? Que desculpa eu deveria arrumar?

Minha cabeça era um turbilhão de perguntas e ao mesmo tempo, devido a tudo o que havia se passado nessa viagem, eu me perguntava ironicamente “será que depois de tudo ainda vem um gran finale desses?”.

Eu não podia me desesperar ali, embora eu não soubesse muito o quê fazer diante daquela situação. Então eu respirei fundo e perguntei para o Paul se ele gostaria que eu fosse embora, pois eu não queria que ele não se sentisse a vontade em sua própria casa… Paul então me respondeu que se eu fosse embora ele se sentiria um fracassado…

Piiiimmmmmmmmmmmm. Sabe quando a sua cabeça faz um piiimmmmmm? Sabe quando as palavras de alguém vão tão fundo em você que você volta para outro lugar de onde nunca saiu?

Vamos falar sobre fracassos então. Olá, meu nome é Helga. Eu tenho 33 anos. Fui advogada durante mais de 8 anos e terminei a minha carreira com uma caixa de papelão na mão onde eu deveria colocar ali todo meu esforço e dedicação e minhas madrugadas varadas em um super conceituado escritório,  enfiar meu rabo entre as pernas e cair fora do mundo corporativo com os papéis da minha demissão devidamente assinados. Eu escrevi um livro e uma peça de teatro que me custaram mais da metade de todo o dinheiro que eu juntei na vida e nada disso me trouxe sucesso ou dinheiro. Eu chutei o balde e a primeira coisa que me aconteceu foi doer o pé. Eu não encontrei o trabalho dos meus sonhos, mesmo pagando um bom dinheiro para um coaching me ajudar a acha-lo, porque eu era e vou sempre ser uma escritora e talvez para o mundo isso não seja uma profissão, seja uma escolha inconsequente para se ferrar na vida. Eu vivia equilibrando minha vida financeira entre bicos, diversas dúvidas e princípios de dívidas. Achei que tinha achado um amor, fiz todo esforço para estar ali na Europa gastando um dinheiro que eu não tinha, mas ele me largou sozinha com uma bicicleta no final da França. E eu estava ali. Depois de 1520 quilômetros eu estava ali, com milhares de fantasmas pedalando comigo e talvez o maior deles também se chamasse fracasso.

Mas, de uma forma muito estranha, eu sentia muitas coisas naquele momento, mas não me sentia uma fracassada apesar de tudo. É claro que eu havia vencido alguns limites físicos e psicológicos que me ajudaram a não me sentir assim, mas havia algo além disso. Ter visto a vida pelos olhos de outros lugares e em cima de uma bicicleta me fez entender que fracasso é um fantasma alimentado de julgamento. Sem julgar tanto nossos erros ou acertos, podemos nos dar a chance de sermos mais leves. E mais felizes também.

Paul já tinha julgamentos demais de uma sociedade que não se cansa de postar felicidades filtradas no Facebook ou no Instagram. Ele, assim como eu, não precisava de mais um julgamento. Do mundo ou de nós mesmos.

Tudo o que eu fiz a partir daquele momento foi aceitar Paul da sua maneira e na sua vida pouco convencional, que incluía maratonas diárias pela manhã, comidas cruas e orgânicas, banhos de luz e meditação. Participei de todos os rituais me deixando experimentar tudo aquilo, sem julgar.  Muitas vezes consegui fazer Paul rir, o que me deixava extremamente feliz. E nos tornamos grandes amigos, a ponto do Paul vir me visitar no Brasil neste ano e trocarmos boas conversas pelo Skype.

Mais do que ganhar um amigo, deixar os julgamentos de lado, foi e é  para mim, o melhor de uma viagem. Se você vai sair do seu país ou da sua zona de conforto para ditar as regras, saiba que você esta muito longe de curtir tudo o que uma viagem tem para te oferecer. É o que penso hoje.

Esses dias li na internet esse texto aqui, onde uma pessoa com muitos julgamentos chega a conclusão  de que viajar é algo somente para quem tem dinheiro. O que eu posso dizer, pelo menos da minha humilde experiência, é que quando eu tive salários invejáveis a coisa que menos fiz foi viajar. Além disso, a empresa onde eu trabalhava fazia questão de colocar na minha cabeça que eu não podia me afastar por mais de 15 dias da corporação, até essa ladainha toda acabar com um computador travado, uma caixa de papelão e um tremendo pé na bunda.

O que eu penso é que viajar tem mais a ver com prioridade do que dinheiro propriamente. Ou seja, deixando de comer em alguns restaurantes por mês, não comprando tantas roupas, abrindo mão de certos confortos dá para se planejar, economizar uma grana e comprar uma passagem para fazer uma viagem bem bacana. Mesmo não dormindo em super hotéis ou comendo em grandes restaurantes, ou fazendo tudo aquilo que “todo mundo diz que você precisa fazer” você pode vivenciar muitas coisas que certamente vão ampliar seus horizontes. Para mim, não faz sentido viajar se não for dessa maneira.

Anúncios

12 comentários

  1. HELGA, a cada texto seu,viajo muito mais que você. Ganho mais certeza de que essa é a forma de viajar com a qual mais me identifico e me dá a confiança de continuar meu planejamento…

    Curtir

  2. Belo texto. Fantástica reflexão. Também acho que viajar é ampliar seus horizontes, conhecer outras culturas e descobrir novos caminhos. E, para isso, não é preciso ser rico. Mas apenas ter coragem e determinação. Viajar faz bem para a cabeça, para a alma e para o coração. 😉

    Curtir

    • Obrigada Alex! Fico muito feliz! Quero muito que outras pessoas vençam seus medos, seus orçamentos e suas inseguranças e viagem… Acho errado essa ideia de que viajar é entretenimento, como muitas pessoas pensam por aqui. Viajar não é luxo. Viajar é se conhecer.

      Curtido por 1 pessoa

  3. Como estou gostando deste blog, estou pedalando uns 5 meses apenas,já pedalava a anos..mas não contínuo, agora já estou com viagem marcada ,estarei na rota Paris Londres Amsterdam, já tenho uma bike de qualidade,alforges,tudo.
    Continue escrevendo.
    beijão.

    Curtir

    • Olá, Waldir! Muito legal!! Fiquei super feliz com a sua visita e com a notícia da viagem! Acho que vai curtir muito!! Se tiver um tempo, dê uma olhada nos posts sobre rotas (principalmente sobre o Knopunten, que pode te ajudar em Amsterdam). Outro post legal são sobre as dicas para embalar a bike! Boa sorte e grande abraço!

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s