Pedalar pelo Brasil

“Você deveria desistir de algo que, pelo menos, você tentou…”.  Eu buscava nas gavetas mais escondidas do meu cérebro um bom argumento que pudesse me tirar daquela situação, já que eu mesma havia me colocado nela. Olhava a bicicleta carregada de um lado e encarava os olhos dele, certeiros diante da minha indecisão. Aquilo tudo parecia bastante irônico. Um ano depois e lá estava eu novamente diante de mais um ciclista, que esta dando a volta ao mundo e novamente diante de um convite: percorrer aproximadamente 600 km de Cambuí (MG) até Mariana (MG) de bicicleta, em uma viagem que duraria cerca de 10 dias e nos levaria até um Festival Internacional de Palhaços.

Mesmo com a bicicleta pronta para seguir, não conseguia ter outro sentimento que não o pânico. Lidar com o risco de ter novamente uma companhia de viagem era algo bem desconfortável para mim. Até que ele me lançou essa desafiadora frase que me deixou imersa num enorme silêncio. Senti então as lágrimas escorrendo.

Acho que li todos os livros que pude sobre viagens pelo mundo de bicicleta. Todos eles escritos por homens, infelizmente. Achava incrível todas aquelas histórias, lugares, culturas. Percorrer o mundo de forma autônoma através de uma bicicleta. Sonhei muito com os relatos dessas encantadoras criaturas. Até que um dia, em 2014, a vida me presenteou com um ciclista que justamente estava dando a volta ao mundo. Depois dele ter me largado sozinha no meio da Europa, tinha para mim duas coisas: mulheres podem mais do que pensam em termos de cicloviagens; ciclistas que estão dando a volta ao mundo são criaturas encantadoras mesmo, desde que materializados na forma de livros na estante.

Porém, a ideia daquela viagem era para mim tentadora. Desde que voltei da Europa, fiz pequenas viagens com amigos, mas queria ter novamente uma experiência de viagem mais longa. Meu plano inicial era seguir de Curitiba até o Uruguai, mas acabava adiando porque ainda tenho medo das estradas brasileiras.

E tinha outra questão também. Atuando como redatora freelancer, dependo 100% do meu trabalho para pagar as contas e embora eu tenha muita liberdade com meus horários, viajar e não trabalhar significa nada de grana no final do mês.

Eu leio muito sobre nomadismo digital, então pensava se existiria uma forma de conciliar esse estilo de vida com uma bicicleta. Essa viagem, portanto, era uma excelente oportunidade para tentar.

E por fim, existia a companhia. Quem me convidava para viajar, era um ciclista espanhol que esta há 11 anos pelo mundo e que, curiosamente ele também foi advogado e atualmente é palhaço. Para quem não conhece a história do Alvaro, vale perder uns minutinhos para se inspirar aqui e também aqui. Antes de conhecê-lo, já havia lido um pouco sobre a sua história no seu blog e achava curiosa a história do palhaço ciclista que levava sorrisos pelo mundo.palhaço

Mas ele era mais um ciclista viajante do mundo. E… bom, já falei sobre isso.

Alvaro me deu um abraço e me garantiu que ficaria tudo bem. Enxuguei as lágrimas, subi na bicicleta e começamos.

É Minas, é morro…

Ao olhar para os lados, logo nos primeiros quilômetros, foi possível ter uma boa noção de como seria aquela viagem. A paisagem de Minas Gerais é encravada de morros e quanto mais você pedala, mais morro vem pela frente.

é minas, é morro

Com os morros, vêm as curvas. Com as curvas, somadas a velocidade dos carros e caminhões e a falta de acostamento, vêm o perigo. Logo depois de chegarmos a Pedralva, a primeira cidade da Estrada Real, Alvaro me deu um item de sobrevivência para as estradas brasileiras: um retrovisor para a bicicleta.

Embora ele seja um item obrigatório pelo Código de Trânsito (CTN, art. 105), sempre achei que um retrovisor mais atrapalha do que ajuda. Porém, não na estrada. A lógica é bem simples: seguir monitorando os carros que estão vindo e ao menor sinal de que não vão desviar de você, é preciso pular fora da pista. Boa parte do trajeto não existia acostamento, então em curvas muito acentuadas, pedalávamos juntos no meio da pista forçando os carros a diminuírem a velocidade. Nas poucas vezes que estivemos em um trajeto reto seguíamos também na pista acompanhando sempre o retrovisor para o menor sinal de perigo.

Encontramos respeito, pessoas curiosas e acolhimento, é verdade. Mas nada disso me fez concluir que a velocidade que os carros andam por aqui é irracional e a postura dos motoristas, na maioria das vezes, é bastante agressiva.foto 3 (1)

Uma triste constatação foi o fato de ver tantas mortes nas rodovias brasileiras. Fugimos ao máximo da BR 381 e da BR 040, procurando sempre as estradas estaduais (MG 295). No entanto, mesmo com um fluxo menor de veículos e com sinalização, a velocidade quase nunca é respeitada. Em trechos conhecidos da Estrada Real, onde há sinalização avisando a presença de peregrinos, os carros seguem correndo de forma estúpida, sabe-se lá para onde…

Acredito que boa parte dos motoristas brasileiros não faz ideia da quantidade de cruzes sinalizando a morte de pessoas e carcaças de animais que estão nas rodovias. Em um trajeto de 5km em 5 km é possível ver pelo menos uma cruz ou um animal morto. Um cenário triste e desolador principalmente quando nos fazemos uma pergunta muito simples: por quê? Não existe a menor explicação que justifique o excesso de velocidade.

alto indice de acidentes

Em termos de paisagens e até de hospitalidade, viajar no Brasil é uma experiência tão rica e maravilhosa quanto viajar na Europa. No entanto, no quesito “estradas” existe muito para se fazer por aqui, até que mais bicicletas possam trafegar com segurança.

Rota da viagem

1º dia – Cambuí/Consolação (MG 295)

2º dia – Consolação/Paraisópolis (MG 295)

3º dia – Paraisópolis/Piranguinho (MG 295)

4º dia –  Piranguinho/Carmo de Minas (MG 347/383)

5º dia – Carmo de Minas/Caxambu (MG 383)

6º dia – Caxambu/Cruzília (MG 383)

7º dia – Cruzília/Carrancas (Trecho estrada real terra)

8º dia – Carrancas/ São João Del Rei (BR 265)

9º dia – São João Del Rei/ Ouro Branco (BR 040)

10º dia – Ouro Branco/ Mariana (BR 040)

Pão de queijo, hospitalidade e cachoeiras

A paisagem de Minas, para mim, foi algo deslumbrante e vivenciá-la na velocidade de uma bicicleta foi algo sensacional. Algumas cachoeiras pelo caminho, tucanos que sobrevoam as árvores, pássaros em cores, casas simples, comida boa. Natureza, natureza, natureza. Existe ali um enorme esforço da mineração em destruir e uma força bruta da natureza se recompor. Mesmo sem saber a tragédia que atingiria meses depois Mariana e o rio Doce, é impossível passar por esse trecho e não perceber os impactos da mineração. E, apesar dela, a natureza abundante.

minas gerais

Em boa parte do trajeto contamos com a solidariedade das pessoas para nos abrigar e fomos muito bem recebidos, ainda que muitas vezes com uma grande desconfiança.

Como sou louca por paçoca e pé de moleque, passar pela cidade mineira que é conhecida mundialmente (segundo os locais) pelo seu pé de moleque (Piranguinho) foi outro delírio da viagem.

Sendo uma mulher, achava curioso o fato de que boa parte das pessoas passava horas falando sobre a viagem do Alvaro e de como “era o seu sonho viajar de bicicleta pelo mundo”. No entanto, mesmo sabendo que eu era a companhia, quando se viravam para mim, alguns deles me perguntavam “mas e o seus pais? O que acham disso?”. Percebia através de comentários como esse, que uma viagem de bicicleta ainda tem uma estrada longa e árida a ser percorrida pelas mulheres, até que elas possam ser vistas com o direito de seguirem seus sonhos.evita

Mas independente do tamanho do sonho, ou do medo da companhia, acho que vale a história do “não desistir de algo que você não tentou”. Mesmo que tentar signifique escalar morros lindos, em cima de uma bicicleta… Ou quem sabe, sorrir para um novo amor.

 

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