Pedalar, viajar e trabalhar: será que isso dá certo?

Durante um bom tempo, trabalho para mim foi sinônimo de um escritório, roupas sociais, luzes frias, ar condicionado, leis, contratos, relatórios de auditoria e dois celulares que comandavam, cada qual, a minha vida profissional e a minha vida pessoal. Com uma média de 13 horas fechada em um escritório, a vida em si, era aquilo que passava atrás da tela do computador e o sentido dela era basicamente ter dinheiro para aproveitar os finais de semana e as férias.

Até que um dia, a minha vida corporativa nada divertida acabou com um fim trágico: uma caixa de papelão onde eu deveria colocar todos os meus pertences e cair fora de um suntuoso escritório de advocacia situado no meio da Avenida Paulista. A minha demissão foi uma espécie de alívio misturada com uma grande angústia, afinal, embora eu não estivesse nada feliz com a vida que levava, eu não fazia a menor ideia do que iria fazer dali para frente.

Como eu já contei aqui, era como se o meu peão tivesse sido chutado do tabuleiro do jogo da vida e eu não sabia exatamente onde tudo aquilo iria parar. Tinha para mim que eu não voltaria de novo para uma vida que não acreditava e que não me trazia felicidade, porém como eu iria sustentar uma vida com mais propósito, que eu nem sabia qual era?

Profissão: malabarista

Li muitos livros, fui a palestras, conheci o “maravilhoso mundo dos coaches” e chafurdei na ilusão do trabalho dos sonhos. Quase terminei como uma drogada sem dinheiro, viciada em livros de autoajuda e ideias mágicas para resolver os conflitos da geração Y. Nenhuma delas funcionava e eu continuava gastando dinheiro sem achar as respostas e o meu propósito.

Mas eu tinha uma vaga ideia de que gostaria de fazer duas coisas na vida: pedalar minha bicicleta e escrever… Eu só não tinha a menor noção de como tornar isso um plano de vida sustentável. Para piorar, eu já havia publicado um livro, mas com ele entendi que a literatura era um caminho financeiramente tortuoso e que acabaria por consumir todas as minhas reservas se continuasse insistindo nele. Então, para segurar as contas do mês, virei uma espécie de malabarista, que me equilibrava entre freelas e múltiplas funções, apenas com o objetivo de encontrar uma vida mais feliz e mais alinhada com aquilo que realmente gosto de fazer.

Nisso entreguei flores de bicicleta, trabalhei como garçonete, fritei hambúrgueres na lanchonete de um amigo e escrevia como redatora freelancer. Ser redatora era algo que me dava muita satisfação e liberdade, mas nem tanta grana para viver em uma cidade como São Paulo. Mesmo com uma vida simples, as contas não fechavam… Aos poucos fui me dedicando mais e mais aos textos, estudando marketing digital e ganhando clientes… Porém, o escritório havia sido substituído pelas paredes de um apartamento minúsculo e eu continuava presa. E me locomovendo de bicicleta para fazer as outras atividades do dia a dia. Era uma realidade melhor do que antes, sem dúvidas… Porém eu me sentia como se tivesse as peças de um quebra cabeça que não se encaixava.

Nomadismo digital e bicicleta

Na teoria, com um laptop e um sinal de internet consigo fazer meu trabalho de qualquer lugar do planeta. Então, porque não colocar um laptop no alforje e seguir trabalhando? Li bastante sobre nomadismo digital, mas não tinha encontrado ninguém que vivesse em uma bicicleta trabalhando… Pedalar, viajar e trabalhar! Uma vida muito completa no meu ponto de vista, porém, será que daria certo?

Eu sou do tipo de pessoa que planeja muito e que muitas vezes espera as condições ideais para colocar as coisas em prática. Porém, a cada dia mais me convenço de que a vida não tem rascunho e que planejar acaba virando uma forma de se adiar também… Ainda mais para os perfeccionistas. Uma hora você precisa tentar, precisa estar disposto a errar e também aceitar as consequências.

E foi com esse pensamento que eu segui 600 km pelas estradas de Minas Gerais com meu laptop, caçando um wi fi aqui, outro acolá e tentando transformar a vida que eu sonhei em realidade.

 “Uai-fi”

Achava que uma das maiores dificuldades que eu iria encontrar pelo caminho era justamente o “wi-fi” e que eu teria que me transformar em uma espécie de caçadora para encontrar sinal em lugares remotos das terras mineiras. No entanto, para a minha surpresa, em restaurantes, cafés, bares e até casas paroquiais usar a internet era possível. O famoso “uai-fi” mineiro é tão bom quanto o doce de leite e o pão de queijo, e melhor, em 100% das vezes, ele é gratuito.

Mas vida de nômade digital de bicicleta, assim como dos viajantes de bicicleta, não tem glamour, não. Então sabe aquela cena da moça trabalhando com o laptop no colo, na frente de uma praia paradisíaca? Pois é… Não é bem assim.  Para cumprir meus prazos precisava adaptar minha viagem a eles e não o contrário, o que significa trabalhar em qualquer lugar MESMO.

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Nessas horas contar com um companheiro que cuidava de encontrar lugares estranhos para a gente dormir também foi uma grande ajuda! Sem Alvarito, acho que seria um pouco mais difícil…

Pedalar é preciso, mas parar também é preciso

A principal diferença entre fazer uma viagem de bicicleta normal e uma viagem trabalhando, para mim, é a necessidade de fazer mais paradas, pois é necessário tirar alguns dias para trabalhar e poder organizar sua agenda antes de colocar o pé na estrada novamente. Isso pode significar mais gastos com hospedagem, dependendo da situação…foto

Adaptação, foco e organização

Acho que os segredos para quem pretende seguir viajando de bicicleta e conciliando o trabalho com esse estilo de vida, são basicamente esses três: adaptação, foco e organização.

Você precisa se adaptar a todo tipo de circunstâncias, por isso é bom se organizar com prazos e trabalhos que não podem deixar de ser entregues. Diversos aplicativos hoje permitem o agendamento de postagens, e-mails e outras tarefas que podem ser feitas online auxiliando o dia a dia do trabalho.

Como tenho dificuldades de escrever com barulho, um fone de ouvido e um pouco de barulho branco são necessários para conseguir trabalhar e me concentrar em cafés e lugares com muita gente e movimento.

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Além disso, às vezes você pode estar muito cansado pela própria pedalada do dia e nesse momento você precisa ter muito foco para driblar o cansaço e vencer o trabalho quando ele é necessário.

Durante as paradas que fiz em hostels  e pousadas, aproveitava para adiantar todo o trabalho e a agenda antes de seguir. Porém trabalhos de última hora e clientes que querem tudo para ontem, tiveram que se adaptar e nem todos são muito maleáveis com esse tipo de “política interna da empresa”.

Mas dá para aproveitar a viagem mesmo assim?

Acho que sim. Nem sempre é possível ter tudo, ou seja, às vezes eu gostaria de estar passeando, mas era necessário estar trabalhando… Mesmo que trabalhando com algo que gosto demais.

Mas tenho uma filosofia que me traz a seguinte reflexão: durante muito tempo eu imaginava que a felicidade era um lugar ou algo a ser conquistado e a minha realidade dependia do meu esforço e empenho para chegar nesse “lugar”. Por isso trabalhava muito, para desfrutar as férias e os finais de semana.  Por isso, imaginava que só poderia fazer uma viagem de bicicleta quando juntasse um bom dinheiro antes para viajar…

Hoje acho que esse pensamento é o melhor truque que ensinaram para ficarmos infelizes e arrependidos. Para mim a felicidade é uma espécie de equação que precisa fazer parte do nosso dia a dia. Muitos fatores (que são extremamente particulares) formam a equação de cada um, que resulta em felicidade. O equilíbrio na soma desses fatores é o que traz satisfação para a vida. Por isso, quando me vem pensamentos do tipo “não estou aproveitando a viagem porque estou trabalhando” eu penso na liberdade que tenho de poder viajar de bicicleta e trabalhar escrevendo, duas coisas que amo fazer e consigo ver como fatores essenciais para me trazer equilíbrio e um saldo positivo na vida.

E o trabalho dos sonhos? Encontrou no meio do caminho?

Olha sinto em desapontá-lo se você, como eu, estava procurando o trabalho dos sonhos. Acho que ele não existe. No final, trabalhos são trabalhos e eles englobam partes boas e ruins. Assim como viajar envolve partes boas e ruins também. Porém, eu penso que a internet nos dá uma ótima possibilidade de reformular a relação que temos com o nosso trabalho e, de certa forma, adaptarmos a vida que gostaríamos ter a ele. Acho isso uma grande vitória dos nossos tempos e aposto nessa ideia todos os dias.

Infelizmente somos educados e incentivados a buscar trabalhos que nos garantam sucesso financeiro e uma ilusória estabilidade… Porém, não nos perguntamos se aquele trabalho esta conectado com o estilo de vida que gostaríamos de levar. Quando penso que fui advogada durante 8 anos, mas simplesmente nunca gostei de usar roupa social, penso que foi um erro da minha parte escolher uma profissão a qual eu não poderia ser plenamente eu, desde a forma de me vestir a me expressar. Para muitos isso é não ter senso de profissionalismo, mas eu discordo. Em um mundo onde estamos conectados 24 horas ao trabalho e basicamente somos identificados pelo nosso trabalho, uma hora ou outra, tentar ser aquilo que não somos é insustentável.

Antes de buscar o trabalho dos seus sonhos, procure se perguntar sobre a vida que você realmente gostaria de viver. Independentemente do retorno financeiro. Eu tenho para mim que sou feliz vivendo em uma bicicleta e escrevendo. Mesmo com a parte boa e a parte ruim, assim eu sigo.

Para quem se interessa por trabalho remoto ou nomadismo digital, aí vão bons sites para você conhecer:

Movebla : várias dicas sobre ferramentas, aplicativos e até mobiliário para trabalhar de forma remota

Nomâdes digitais: site sobre o estilo de vida nômade

Exploring alternatives: site gringo incrível que fala sobre um casal que vive em um motor home

The Professional HOBO: site que trata especialmente sobre trabalhar e viajar de forma sustentável

  E você? Acha que pedalar, viajar e trabalhar é possível? Tem dúvidas? Escreve aqui para nós nos comentários!

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10 comentários

  1. Realmente sua conclusão (inconclusiva) de que nós não encontramos o trabalho dos sonhos é a chave para se obter a tão liberdade. Crescemos com este paradigma que nos foi imposto de que há uma felicidade, ali, escondida, nos aguardando… Sempre que não a alcançamos, somos jogados para o quarto dos fracassados. Aceitar tal realidade e ir atrás do próprio bem-estar, obviamente sabendo que existem seus percalços neste caminho, é a chave do “sucesso”.
    Parabéns pelo depoimento. Gostaria de me comunicar com você para saber mais detalhes de sua experiência.

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  2. Seu blog é sensacional, Helga. Gosto de ler os seus textos. Motivadores… Dá sim, claro! Eu trabalho, pedalo, estudo e viajo. tudo ao mesmo tempo às vezes rsrsrs Certamente, há de ter flexibilidade. Agora, me encontro no Brasil, sigo em agosto para fazer o Caminho de Santiago e sigo para Austrália. Ainda, sem o notebook no alforge… até quando eu não sei. Gostou de Ouro Branco? Cidade onde morei 10 anos…Aquela linda serra. Mantenho seguindo suas idéias… Embalei minha bike seguindo as suas orientações. Obrigado e sucesso!!

    Zé Celso

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    • Olá, Zé! Poxa! Muito bom ler seu comentário!! Adorei esses nômades leitores que se manifestaram por aqui! Acho que esse caminho de adaptar a vida aquilo que acreditamos que nos faz feliz é um “caminho de santiago” completo!! Cheio de acertos, erros, subidas íngremes, ventos exaustivos…

      Passei por Ouro Branco, a estrada de lá até Mariana foi um alívio com acostamento e asfalto novo! O Parque Estadual da Serra de Ouro Branco é um presente para os olhos! Foi sensacional!

      Mande notícias de Santiago e da Austrália! Bom caminho!!

      Curtido por 1 pessoa

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