O mundo sem anéis

Antes de pedalar, eu escrevo. E para escrever, eu pedalo. Esse é um ciclo vicioso que domina boa parte da minha vida e que eu chamo de felicidade. Quilômetros em cima de uma bicicleta, algum café que sempre esfria e o silêncio que acaba diminuído pelos sons do teclado…

Gosto tanto de pedalar e de escrever, que acabei me tornando uma leitora compulsiva de histórias sobre bicicletas. Especialmente de livros que contam sobre viagens de bicicleta. Li todos que encontrei pelo caminho…

Porém, esses livros que em geral são escritos por homens que deram voltas ao mundo com suas bicicletas, contam histórias muito parecidas envolvendo episódios de quase morte, amores abandonados em algum canto do mundo e descrições nem sempre envolventes sobre paisagens exóticas, comidas estranhas e costumes diferentes. Com o tempo, confesso que esses livros deixaram de me emocionar e depois que os “homens que dão a volta ao mundo de bicicleta” passaram a se materializar na minha vida – e eu acabei me tornando uma forte candidata a ser a mocinha abandonada da página 497 – perdi o tesão completamente.

Mas um dia, em uma madrugada de zero inspiração, estava lá eu no Facebook rodando os dedos na timeline da procrastinação, quando li uma matéria sobre um lançamento de um livro de uma moça, que havia viajado sozinha pela França, Espanha e Portugal com sua bicicleta. Uma luz rapidamente se ascendeu e meu espírito de consumidora compulsiva só conseguia me dizer “você precisa ler esse livro!”.

Entrei na Amazon e depois de um clique estava lá baixado, bonitinho e não consegui mais parar de ler.

“O mundo sem anéis” é um livro em fragmentos, que conta a história de uma viagem de bicicleta. Mas, muito além dela, conta sobre aquela viagem que fazemos para dentro quando estamos em cima de uma bicicleta. Pouco de tudo o que eu já li atinge a sensibilidade e a profundidade de uma narrativa intensa e ao mesmo tempo sutil, provocada pela autora, Mariana Carpanezzi. Li do começo ao fim, com os olhos sem piscar. Subi montanhas, ri, meditei, chorei e pedalei junto, nas mesmas questões que nos fazem tão próximas, pelo simples fato de viajarmos com uma bicicleta. Me identifiquei além das palavras e matei a saudades que eu estava de ler um daqueles livros que a gente gosta tanto, mas tanto de ler, que mal vê a hora passar.

Um dos trechos que mais gostei do livro deixo aqui, para vocês ficarem com cócegas de vontade…

“… ser mulher e ciclista é uma identidade de muitos capítulos que os outros reconhecem à sua própria maneira. Significa homens olhando pras suas pernas como se você estivesse de mini-saia e não de roupa de ciclista. Receber convites sexuais inesperados, porque parece que existe uma certa ideia de que mulher ciclista é sinônimo de liberdade e que liberdade é sinônimo de transar com desconhecidos. Também implica gente brava perguntando onde está o seu namorado para carregar os alforjes pesados no seu lugar. E mais gente ainda perguntando onde está o seu namorado enquanto você está na estrada. Tem outros que não acreditam que você subiu montanhas sozinha, e que vão embora rindo alto, na certeza de que você inventou todas as histórias. Mas também existem aqueles que ficam muito emocionados e te levam para dormir na casa deles, querendo saber de tudo e felizes, porque em algum lugar dentro deles o encontro com uma mulher ciclista que viaja só é como estar frente a frente com um ser mitológico – um gnomo, um fantasma, um centauro, uma Barbie em traje esporte, uma desbravadora, um alienígena.”

Mais sobre o livro e sobre a autora você encontra aqui

Para comprar, só clicar aqui.

Boa viagem e boa leitura!

E para quem curte uma literatura de bicicleta (com viagem ou sem viagem), pode compartilhar suas dicas aqui nos comentários abaixo! Agradeço super!

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7 comentários

  1. Como muitos Brasileiros eu comecei pelo livro do Olinto, depois li o livro do Aurelio e de novo outro do Olinto. Gosto muito do gênero, mas não compartilho a convulsão de apenas ler livros sobre esse assunto. Fui recomendado a ler o Homem Livre (que está na minha lista) e agora o livro da Mariana vai entrar para lista também.
    O teu post, entretanto, me forcou a pensar sobre um aspecto que nunca havia me dado conta antes… Não sabia da existência de livros do gênero escrito por mulheres, apesar de saber dos planos de algumas ciclistas em escrever um no futuro. Já li outros posts teus em que você abordou essa questão da diferença dos sexos e isso me intriga muito, mas acredito que a influência do momento pessoal que passo tem um peso bastante grande nisso.
    Como você eu também tenho um blog e, na medida das minhas possibilidades, tenho procurado criar conteúdo para ele. Todas semanas olho as estatísticas para ter uma Idea da penetração desse conteúdo, da sua relevância e para determinar, dentro das minhas humildes possibilidades, o que fazer em seguida. Junto as estatísticas do que eu próprio crio, procuro estar “antenado” com o que está acontecendo na mídia com relação ao ciclismo de longa distância (minha preferência pessoal). As estatísticas deixam claro que as mulheres ainda são minoria no esporte (por curiosidade dei uma olhada agora mesmo no meu Google Analytics e os dados demograficos indicam 74% masculino e 26% feminino), mas que sua participação vem aumentado gradualmente (O Google Analytics também está me mostrando hoje que 71% das novas sessões são de mulheres). Seria fascinante ler mais historias sob o ponto de vista feminino, pois a alma feminina é um grande mistério para mim (sei que é um clichê, mas é verdade).
    Desde que te encontrei, alguns dias atrás, venho acompanhando teu conteúdo e acompanho pelo Facebook várias ciclistas que no momento estão na estrada… do Brasil mais notoriamente a Carol Emboava e a Ada Cordeiro, mas a minha lista tem ciclistas da Coreia, Polônia, Alemanha, etc. Acho que no espaço de alguns anos teremos uma maior quantidade literária escrita por olhos femininos. Eu não escolho seguir a uma pessoa ou outra por causa do sexo dela (apesar de que como homem, seria uma hipocrisia da minha parte não admitir que a atração que as pernas torneadas de uma ciclista mulher geram, tem um efeito muito diferente em mim do que as de um ciclista homem), uma vez que sigo também um número proporcional de ciclistas homens, mas minha preferência, no entanto, sempre foi por aqueles que, independentemente do seu sexo ou orientação sexual, conseguem escrever – seja o que for… um livro, um post, um artigo de revista, etc – para o deleite da alma e isso é um talento raro.
    Adoro quando me desafiam e me obrigam a pensar e a tentar enxergar as coisas por olhos alheios.

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    • Legal, Paulo! Recomendo outros dois livros para você sobre mulheres que pedalam, se tiver curiosidade. Um deles se chama “Amazônia, a viagem impossível” que conta a história da Louise Southerland que com 52 anos pedalou a Transamazônica em 1978 e o outro “I never intended to be brave” da Heather Andersen que pedalou parte do sul da África. E tb recomendo vc ouvir esse podcast aqui sobre mulheres cicloviajantes bem legal tb! Achava que as minhas experiencias eram pessoais, mas depois de ouvi-lo vi que nem são, não… rs

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      • Obrigado Helga. Vou procurar os livros que voce recomendou. Com relacao ao Podcast, ja havia escutado, alias ja acompanho a Carol Emboava e a Ada Cordeiro praticamente desde o inicio da ciclo-viagem delas. Escuto todos Podcasts do Portal extremos relacionadas ao cicloturismo.

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  2. Olá Helga! Estou encantada pelo seu blog, suas histórias, suas viagens! Confesso que fazer uma cicloviagem, mesmo que curta, tem se passado muito pela minha cabeça, e seu blog só aumentou a vontade! hahaha’
    Seu trabalho é incrível e inspirador! Parabéns! 😀

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    • Oi Camila! Que delícia ler seu comentário! Fico super feliz que o o blog te inspire! Acho que escrevo um pouco para me motivar e para vencer meus medos também. Aos poucos, vou seguindo. E quanto mais eu pedalo, mais amo isso! Apareça sempre que puder e quando quiser compartilhar suas aventuras fique a vontade! Super beijo!

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