Dicas infalíveis para montar alforjes inúteis e pesados

“A decisão sobre que objetos você quer manter é, na realidade, uma definição sobre o estilo de vida que deseja viver”

(Marie Kondo, “A arte da arrumação”)

Quando eu penso nos erros e acertos que cometi em ciclo viagens nada é mais simbólico do que o meu fracasso diante dos alforjes. Colocar exatamente tudo aquilo que preciso e mantê-los leves foi – e ainda é – um desafio para mim. Não é tão simples reduzir a vida e levá-la para a estrada em cima de uma bicicleta. Da mesma forma, é impossível não voltar de uma viagem e passar semanas se perguntando se você precisa mesmo disso tudo o que você tem e acumula.

Arrumar alforjes foi um ótimo aprendizado para levar um estilo de vida minimalista. Graças a eles acho que compreendi que carregar (e ter) poucas coisas facilita a vida e representa um enorme ganho de tempo. Por isso, viver com menos eu diria que faz um bem enorme para o dia a dia, a alma e para o coração.

Mas, o que é realmente útil e necessário para se levar nos alforjes? Acho curioso o fato de que muitos viageiros declaram, na forma de um check list, tudo aquilo que levaram para suas  ciclo viagens. Às vezes me parece até que rola uma certa competição para ver quem leva menos roupa íntima, o que eu acho bastante engraçado. Porém, saber que fulano levou apenas uma cueca ou que a ciclana levou duas calcinhas não me acrescentou em nada sobre a “arte de arrumar alforjes”. Penso que cada um conhece suas reais necessidades e, se não conhece, a estrada vai ensinar, por isso, acho que não tem jeito de montar o alforje ideal sem errar muito até que você descubra o que é realmente necessário para você e o que são os excessos.

No entanto, acho que algumas dicas e reflexões valem muito na hora de montar um alforje leve e útil e é justamente sobre elas que eu queria falar nesse post. Obviamente que o título é uma provocação, pois eu não tenho vergonha de dizer que errei tanto, coloquei tanta tralha dentro de um alforje, que sei mais sobre a receita de como montar um alforje inútil e pesado do que o contrário.  Mas vamos lá! Anotem aí e depois compartilhem as suas dicas. Aprender nunca é demais!

Não leve itens super específicos

Parece um pouco estranho dizer isso, mas itens que não sejam multifuncionais ocupam mais espaço e significam mais peso. Em outras palavras, vale mais a pena levar um corta vento impermeável e com capuz para a chuva e o frio, do que uma capa de chuva e um corta vento. Uma papete também é uma ótima opção para pedalar nos dias de calor e nos dias de chuva e pode substituir um tênis. Um shampoo com condicionador ocupa bem menos espaços do que um shampoo e um condicionador e por aí vai… Sempre que tiver todos os itens separados para levar, pare e reflita se alguns deles não podem ser substituídos por itens “dois em um”.

Uma vez entrei na Decathlon e comprei um par de sapatos de borracha, desses utilizados para quem pratica hidroginástica, achando que ia ser uma ótima aquisição para pedalar na chuva. Odeio ficar com o pé molhado, então levei os tais sapatos na minha primeira cicloviagem achando que aquilo era muito inteligente da minha parte… Além dos sapatos alagarem na chuva, eles ocupavam um espaço tremendo nos alforjes. Mesmo sendo leves, eles me mostraram que isso de levar itens muito específicos, para situações prováveis, pode se transformar em uma tremenda roubada.

Tudo pode ser reduzido

Seja na forma de guardar, seja na forma de levar, reduzir é o segredo do negócio. Por isso, fazer rolinhos com as roupas ajuda a economizar espaço. Levar cosméticos em vidrinhos de xampu, tipo desses que tem em hotel, também ajuda a criar uma necessaire micro, mas não menos útil.

Secagem rápida é tudo!

Vale mais levar roupas de secagem rápida em uma quantidade suficiente do que poucas roupas de malha ou de algodão. Outro item de secagem rápida que faz muita diferença é a toalha. Para quem já pegou um dia intenso de chuva na estrada e ficou durante semanas sentindo aquele cheiro de chulé crescer dentro do alforje, vai entender o que estou falando. Roupas de tecido que secam rápido realmente valem à pena e costumam ser bem mais leves. Elas custam um pouco mais caro do que peças tradicionais, mas o investimento vale à pena. No caso das meninas, calcinha de tecidos que secam rápido também são uma ótima opção, além de serem mais higiênicas.

As tais bermudas acolchoadas e grudadas…

Você não precisa viajar vestido como quem vai competir em uma prova de ciclismo. Porém, as bermudinhas acolchoadas ajudam – e muito – a não assar. Elas não são bonitas, eu confesso que não sou muito fan, mas devo reconhecer que evitam muitos desconfortos.

Um bom kit de primeiros socorros é essencial

Tenho uma história engraçada de uma vez que estava no meio de uma rota, fui fazer xixi no mato, mas o mato em questão era um monte de urtigas. Me lembro de ter ficado com as pernas super vermelhas e coçando. Para a minha sorte estava acompanhada de um ciclista que havia viajado a América inteira e contava com todo tipo de pomada AND bruxarias da Guatemala, México, Peru entre outros. Passamos todas as pomadas que ele tinha e a coceira aliviou. No entanto quando pensei no meu “kit de remédios” me dei conta de que só havia levado relaxantes musculares e laxantes, por que eu amo viajar, mas meu intestino nem tanto…

Em outra ciclo viagem, um amigo levou uma picada de vespa e nós estávamos no meio do nada quando a boca dele começou a inchar absurdamente. Achar um anti histamínico no meio da roça mineira enquanto meu companheiro de viagem se metamorfoseava na Angelina Jolie não foi uma tarefa nada fácil, motivo o qual recomendo levar sempre um kit de primeiros socorros.

É possível achar kits prontos, mas se quiser montar o seu, aí vai uma lista boa:

  • Curativos: útil para cobrir e proteger pequenos ferimentos;
  • Cotonetes: para limpar feridas e retirar corpos estranhos;
  • Algodão: para desinfetar o ferimento;
  • Micropore: para fixar gaze e ataduras;
  • Atadura Elástica: para cobrir ferimentos grandes ou dar firmeza, em caso de lesões internas;
  • Uma caixa de comprimidos de ácido acetilsalicílico 500 mg: para dores em geral;
  • Uma caixa de comprimidos de paracetamol 500 mg: também para a dor, em caso de alergia a aspirina;
  • Compressa de Gaze: para limpeza de ferimentos e confecção de curativos;
  • Uma caixa de antihistamínico: para reações alérgicas;
  • Um frasco de água oxigenada: para desinfecção;
  • Um antidiarréico: em comprimidos ou líquidos;
  • Um termômetro: para medir febre;
  • Um par de luvas de látex descartáveis;
  • Pinça e tesoura;
  • Creme para queimaduras, assaduras e ferimentos em geral (Nebacetin). 

A prática leva a perfeição

Quanto mais eu viajo, mais eu compreendo sobre as minhas reais necessidades e a partir delas consigo separar melhor aquilo que é útil, leve e necessário. Ter o melhor equipamento não significa necessariamente montar o alforje perfeito, porque as necessidades de cada um são as necessidades de cada um. E, no final das contas, dá sempre para reduzir, priorizar, mudar e seguir se pesquisando. Quanto mais sei sobre as coisas que quero manter, mais sei sobre mim e o estilo de vida que quero ter em cima de uma bicicleta. Mais leve e em movimento, acho que sou mais feliz.

E você? Acredita na mágica do check list ideal para todo ciclista ou encara a arte de arrumar alforjes como ferramenta de autoconhecimento? Pode escrever (e se gabar) quantas calcinhas ou cuecas você levou aí nos comentários, eu sempre acho isso muito divertido!

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8 comentários

  1. Oi Manu! Cheguei aqui por alguém que comaprtilhou seu post no face, achei muito interessante e útil (e divertido), estou por começar a sair como cicloturista e adoro esse tipo de post, abraço e boa estrada!!

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  2. Eu gostaria de complementar na parte de ferramentas. Vc já falou da importância dos itens múltiplos, então: Canivete de ferramentas com chave de corrente e, se possível, chave de raios. Se conseguir achar um que tenha alicate é bom, senão também procurar um alicate multifunção bem compacto. (Um alicate já me salvou no caso de cabo de marchas rompido, e arames difíceis de tirar do pneu). Espatulas. Um “frasco de colírio” com óleo de corrente (aplicar após um dia chuvoso ou ouvir a corrente chiar). No lugar de levar pneu reserva, levar alguns (2?) manchões feitos de pedaços de pneus (pegue um pneu gasto, liso, e recorte um teco de uns 7cm de comprimento, completo, apenas sem o arame/aramida da borda). Nunca tive um rasgo de pneu que um manchão desses não resolveu o suficiente para chegar na próxima parada programada. Verifique a sua corrente antes de viagem, mas leve um ou dois “power-link”. Não pesam nada, e resolvem no caso de quebra de corrente. Leve gancheira extra. Não pesa nada, ocupa pouco espaço. Não precisa levar mais que 3 câmaras (costumo levar 2) se você levar um kit remendo. A cada furo, faça o remendo logo na próxima parada. Obviamente, leve o kit remendo compacto, e de preferência COM cola (os sem cola seguram, mas nem sempre seguram dias…). Bom, esse kit de ferramentas nunca me deixou na mão, e fica bem compacto. Ocupa uns 500ml (considerando 3 câmaras de ar 700×25). Abs.

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  3. Ola! Eu costumo guardar as embalagens plasticas de lençois. Levo dois comigo para colocar pecas de roupas dentro dos alforges (roupa intima e camisetas num e calça, bermuda e fleece no outro por ex.). Fica facil de localizar. O que mais pesa para mim é a necessaire…. mesmo levando vidros pequenos para shampoo e condicionador, tem mais o filtro solar, creme para o frizz do cabelo, conservante para as lentes de contato, agora o indispensável repelente ….e não vivo sem talco granado rsss

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