Pequenas viagens: Praia do Jabaquara, Ilhabela, SP

“I’ll tell you what freedom is for me: no fear!”

(Nina Simone)

Eu já sabia como era a sensação de terminar uma viagem de bicicleta sozinha, mas por mais estranho que isso possa parecer, eu nunca havia começado uma. Então, isso de arrumar os alforjes, pensar em uma logística mínima e sair pedalando rumo ao desconhecido, era algo relativamente novo para mim. E, talvez por isso, essa viagem que durou menos do que 40 quilômetros tenha sido tão especial.

Há algumas semanas compartilhei aqui no blog os conselhos do Alastair Humphreys para jovens aventureiros e, nele, um vídeo sobre as microaventuras. Alastair fala sobre as microaventuras comparando-as a um café expresso: algo curto, intenso e cheio de sabor.

Quem gosta de viajar de bicicleta (e eu me vejo muito nessa situação) está sempre em contato com projetos de viagens largas, mas será que viagens de curto espaço de tempo não podem ser tão intensas ou cheias de sabor quanto? Acho que o grande problema das grandes viagens é que elas podem acabar se tornando uma epopeia mental que nunca acontece e quando vemos estamos lá, frustrados, lendo blogs de outros viageiros e pensando: “que merda! Porque eu não fiz isso… Agora tenho filhos, e família e blá blá blá…” Recebo alguns e-mails e mensagens que sempre tratam disso, mas o que posso dizer pela minha própria inexperiência é que talvez uma estrada seja feita de pequenas pedaladas. Ou, uma longa viagem de bicicleta talvez comece com pequenas viagens.

E nisso, há algum tempo eu já me questiono: quais são as possibilidades de se explorar o próprio quintal com uma bicicleta e porque não começar AGORA? Explorar um quintal privilegiado feito Ilhabela não é uma tarefa tão difícil, mas mesmo quando morei em São Paulo isso nunca me impediu de curtir pequenas viagens com os amigos. Caminho do Sal, Rota Márcia Prado, Paranapiacaba e até a minha primeira cicloviagem para uma ecovila em Piracaia  são algumas das pequenas aventuras que entraram nesse roteiro. Por isso acho que o mais importante, no final das contas, é começar.

Sendo uma mulher, no entanto, eu nunca havia começado sozinha. Confesso que cruzar a Bélgica e parte da Holanda solo não me deixou menos medrosa. Conhecer quilômetros das estradas do Brasil pedalando acompanhada, muito menos.

Ser uma mulher pedalando sozinha tem sempre um ônus, não tem como ignorar isso. Me sinto sempre alerta, como se eu tivesse uma anteninha feminina querendo sempre antecipar o perigo. Mas minhas pequenas experiências sozinhas me fazem entender com mais clareza a dimensão do medo e saber que ele não pode ser um impeditivo para fazermos aquilo que realmente gostamos. Ando explorando essas fronteiras em micro doses então, essas fronteiras que separam a liberdade do medo.

A Praia do Jabaquara

A praia do Jabaquara fica no extremo norte de Ilhabela e é a última praia acessível por estrada. Depois dela há também a Praia da Fome, outro lugar paradisíaco, mas onde você só chega de barco ou a pé por uma trilha (que eu ainda não testei).

Saindo do Perequê é preciso pedalar aproximadamente 22 quilômetros para chegar até a praia, incluindo uma pequena estrada de terra de aproximadamente 8 quilômetros. Para quem nunca viajou de bike, eu considero uma pequena viagem bastante interessante, pois além de terminar em uma praia de águas verdes e linda, para chegar até ela você vai pedalar por uma ciclovia, por uma pequena estrada sem muito movimento (mas também sem acostamento) e por uma estrada de terra. Ou seja, é a experiência de estar com uma bicicleta carregada em três terrenos diferentes, o que te mostra com bastante clareza como pode ser uma cicloviagem.

foto 1 (4)

Quando fiz essa viagem era um dia de muito vento na baía que separa Ilhabela de São Sebastião e esses dias são uma verdadeira festa de velas por aqui. Muitas cores e tamanhos de velas cheias aceleram os barcos e, começar essa viagem assim, já foi um verdadeiro presente!

Um mar verde visto lá de cima

A estrada de terra é bem tranquila (principalmente comparando à estrada para Castelhanos) e pode ser encarada por iniciantes sem grandes problemas. Porém, algumas subidinhas não muito camaradas sempre fazem parte, né gente? Mas rola empurrar sem culpa. No final é tudo em benefício das pernocas!

foto 2 (4)Caminho bem sinalizado

Há uns quatro quilômetros, antes de chegar na trilha que leva à praia existe um pequeno mirante que dá para ver um mar verde estonteante lá de cima. Quando parei a bicicleta para tomar um gole de água dei de cara com aquela vista e só consegui dizer “uau!”. É tão bonito que você nem vai se lembrar das subidas do caminho e vai ter a certeza de que valeu a pena!

foto 4 (2)

Com poucas ondas, um riacho cristalino no canto e muitos borrachudos no final da tarde e no começo do dia, principalmente, Jabaquara é uma espécie de pequeno paraíso que não cabe em palavras.

No meio do caminho existem várias outras praias lindas, incluindo a Praia da Siriuba que é uma das minhas favoritas. Há uma cachoeira também no percurso, por isso, é importante manter o foco no pedal, pois parar e conhecer tudo em um final de semana vai ser quase impossível.foto 3 (8)

Outra dica para quem gosta de praia e pedal é reservar um tempo a mais e seguir pedalando aos poucos. Cachoeiras, mirantes, praias, natureza e aventura é o que não falta por aqui.

Chegando na praia existe a opção de um restaurante não muito barato e petiscos que são vendidos por ambulantes. Porém fora dos finais de semana e feriados é muito possível que você não encontre nada então um lanchinho é sempre bem vindo.

Lugar para ficar também não há, mas não me parece um local onde as pessoas te recusariam hospedagem, caso você queira acampar. Antes de chegar na praia, existem opções de campings, chalés e hostels que são mais em conta.

Se você vem para a Ilha e procura hospedagem minha recomendação é essa aqui. Com conforto e simplicidade o Chalé do Edu é um lugar super bacana ainda mais para quem vem de bike.

foto 2 (5)

É uma viagem bem tranquila e você pode fazer um bate volta sossegado. Na volta, eu considero uma parada obrigatória a Gelateria Tradizionale que fica no Centro histórico de Ilhabela, próximo ao posto de informação turística (onde param os cruzeiros). Domenico (o dono) e seus filhos são uns queridos e o gelato, mama mia! É espetacular ainda mais depois de um pedal! foto 1 (6)

Medo e liberdade

Quando terminou o asfalto e dei de cara com aquela estradinha de terra, confesso que me bateu um certo frio na espinha. Cruzar a Bélgica e parte da Holanda pedalando sozinha, ao final, não me fez uma mulher menos medrosa e, sinceramente, não sei se isso é bom ou ruim.

Mas cada vez que vou mais longe, aceito o medo com mais honestidade e sigo um pouco mais. Encaro ele como um bom sinal de proteção, mais como um aliado do que um inimigo. Desses pequenos pedaços de mundo desbravados, tenho apenas a sensação de me sentir mais forte e ao mesmo tempo mais humilde, diante da beleza e dos presentes que uma viagem de bicicleta reserva aos olhos.foto 5 (2)

Acho que esperar por companhia, ou mesmo deixar que o medo não te deixe ver o outro lado, só por ser uma mulher, é abrir mão de se surpreender com belos ensinamentos que uma viagem solo pode trazer. E esses ensinamentos, desconfio, podem ser muito ricos quando observado pela ótica das mulheres. Talvez por isso, ir pedalando até o Jabaquara tenha sido tão especial.

E você? Tem uma dica bacana de pequenas viagens para compartilhar? Deixe aqui nos comentários!

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8 comentários

  1. Que bacana, Helga. Meus parabéns pela iniciativa e pela coragem!
    Além de todo o prazer envolvido, é um rompimento grande na relação com o medo, não é?
    E me conta que você não assistiu ao documentário sobre a Nina Simone? : – )

    Abraços

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    • Oi Rubens, pois é a superação do medo só vem mesmo a partir das experiências. Acho sempre válido buscar elas. É muito diferente viajar acompanhada e sozinha, na minha opinião, mas confesso que cada vez gosto mais das pedaladas solo. Sobre a Nina Simone, amo ela de paixão! Assisti várias vezes o documentário! rs! Valeu pelo comentário e pela visita!

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    • Paulo, se você usa o wordpress pode buscar plugins que permitem publicar em múltiplos idiomas… Nunca usei, mas sei que tem, vale a pena pesquisar… Se quiser uma ajuda na tradução, também faço esses frilas! 😉

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