Memórias de um sobrevivente – A viagem de bicicleta de Sungwon

Em julho do ano passado recebi pela rede do Warmshowers um pedido de hospedagem de um cicloviajante sul coreano. Na época, não teria como recebê-lo em casa, mas sugeri que a gente se encontrasse para pedalar por São Paulo e também para que pudéssemos tomar um café e falar mais sobre viagens.  Como Sungwon havia me explicado que era um grande fã de cafés e que havia trabalhado como barista em alguns países, achei que seria uma boa ideia encontrá-lo no Aro 27, um dos bike cafés que mais gosto em SP.

Foi lá que conversamos por volta de uma hora sobre uma viagem bastante inusitada pelo mundo, diante de alguns relatos que já ouvi…Depois de realizar uma expedição em uma zona desmilitarizada entre a Coréia do Norte e a Coréia do Sul, Sungwon passou bem perto da morte, quando quase pisou em uma mina terrestre. Na época ele cumpria o serviço militar obrigatório e outros soldados do seu pelotão não tiveram a mesma sorte, perdendo membros como braços e pernas depois da explosão. Segundo ele, esse episódio fez com que questionasse o sentido da vida. Quando terminou o serviço militar, sua primeira meta foi tirar seu passaporte, pegar sua bicicleta e sair pelo mundo. Para ele, isso tinha o significado de uma segunda chance e Sungwon queria ver com os próprios olhos o mundo que talvez ele não tivesse conseguido ver, se não tivesse sobrevivido.

Porém, o encontro quase fatal com uma mina terrestre não foi o único evento em que Sungwon escapou da morte. Acidentes, assaltos, a falta de dinheiro e a morte do pai foram situações nada simples de se vencer durante a viagem. Com um inglês pouco enrolado e um sorriso fácil, Sungwon me contou um pouco da sua história e os aprendizados que leva com a sua viagem. Aos 31 anos ele me explica, sempre gesticulando com a cabeça como fazem os orientais, que o mundo é bom… Mas ele se acostumou a não esperar muito da vida para não se frustrar.

Guardei no meu celular por muito tempo a história gravada desse viajante que me deixou de olhos arregalados diante de tanto perrengue e que me emocionou ao contar que, com o único dinheiro que tinha, comprou uma passagem para a Coréia para ir se despedir do pai. “Ele era como uma montanha para mim”. Compartilho com vocês um pouco desse relato no post de hoje e espero que ele seja responsável por um certo “click” que essa entrevista me provocou. Estamos vivos! Boa viagem!

E.I. – Quando você começou sua viagem e qual foi sua rota?

Sungwon – Comecei em 2010. Mas antes, havia saído da Coréia para estudar inglês nas Filipinas com o dinheiro que havia juntado durante o serviço militar. Depois voltei, peguei a bicicleta e segui para China, Laos, Vietnam, Camboja, Tailândia, Malásia, Singapura, Indonésia e Austrália. Na Tailândia sofri um acidente. Fui atropelado e me machuquei bastante e precisei ficar parado para me recuperar. Na Austrália também fui atropelado e roubaram minha bicicleta, passei um tempo buscando trabalho sem sucesso, depois consegui trabalho e comprei uma nova bicicleta. Só então, atravessei para o Canadá e comecei a descer toda a América.

No México e na Colômbia fui roubado…

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E.I. – Com armas?

Sungwon – (Risos) Sim, com armas. Não tenho nada contra esses países, mas infelizmente passei por essas experiências ruins por esses lugares.

Por conta dos assaltos acabei ficando sem dinheiro, então parei no Peru e fiquei trabalhando em uma cafeteria por lá.  Quando estava em Cusco trabalhando em uma cafeteria, eu planejava ir para a Bolívia, porém minha mãe me ligou avisando que meu pai estava muito mal de saúde.

Deixei minha bicicleta então em Lima e voltei para a Coréia. Achei que precisava voltar. Meu pai sempre foi alguém grande para mim, como uma grande montanha…

Fiquei um tempo na Coréia com a minha mãe para ajudá-la emocionalmente depois da morte do meu pai. Foi muito triste. Depois voltei a viajar. Mas pulei muitos países da América Latina e alguns lugares acabei usando o ônibus por conta do tempo dos vistos. A América Latina é muito grande.

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E.I. -Porque você decidiu começar essa viagem?

Sungwon – Foi por uma experiência pessoal. Como todo homem coreano, eu estava obrigado a servir o exército e também a fazer diversas expedições militares. Então, eu estava com meu batalhão em uma área chamada DMZ (“zona desmilitarizada”) na Coreia, quando uma mina terrestre explodiu e vários dos soldados que estavam nessa expedição perderam seus membros. Como eu era o quase tenente, precisei dar satisfações ao Exército e tudo aquilo que vi fez mudar o sentido que a vida tinha para mim. Mesmo em uma guerra, nós nunca pensamos quando vamos morrer. Mas parece tudo banal, podemos sair e simplesmente não voltar. Achei que eu tive uma segunda chance.

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Assim que terminei o serviço militar obrigatório fiz meu passaporte e decidi viajar pelo mundo de bicicleta. Antes de começar a viagem fui para as Filipinas estudar inglês.

E.I. – Porque a bicicleta?

Sungwon – Eu tinha um bom condicionamento físico e sabia que era um jeito mais barato de viajar.  Mas não foi apenas pelo dinheiro. Eu também já tinha muita experiência em viver na selva e acampar por conta do serviço militar, então achei que viver na bicicleta não seria um problema, mesmo que a bicicleta me levasse para lugares mais remotos.

E.I. – Você já usava a bicicleta como seu meio de transporte na Coréia?

Sungwon – Sim, bastante. Minha universidade não era longe então eu sempre ia de bicicleta, era como 15 minutos…

E.I. – Depois de ter visto uma guerra e quase ter pedalado o mundo inteiro, como você vê o mundo hoje?

Sungwon – No começo eu achava que o mundo era bom. É claro que existem pessoas ruins, mas pessoas boas são a maioria. Mas a viagem me fez mudar muito a perspectiva que eu tinha sobre o  mundo. Na verdade, minhas experiências com acidentes e tudo… Acho que não morri por sorte. Passei um tempo muito difícil, especialmente na Austrália. Eu não tinha nenhum dinheiro, trabalhava muito, queria comprar uma nova bicicleta porque haviam roubado a minha. Era difícil. Fui muito mal tratado por ser um estrangeiro querendo trabalhar. A viagem me ensinou a me proteger. Sei que preciso me proteger de coisas ruins, pensamentos ruins, energias ruins. Então, eu penso que o mundo é bom, mas não crio expectativas para não me frustrar. Preciso manter minha mente equilibrada.

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E.I. – Alguma vez você pensou em desistir?

Sungwon – Não.  Acho que eu encontrei o que amo que é viajar e trabalhar com café e a viagem me proporcionou isso, experimentar cafés de vários lugares do mundo. A viagem vem sendo uma boa experiência para isso.

E.I. – O que você achou do Brasil? E de São Paulo?

Sungwon – No começo eu estava muito preocupado com a minha segurança. Mas nesses três dias que passei percebi que é uma cidade muito interessante, com muitas coisas para fazer. É uma cidade agitada, me lembra muito a Coreia. Todo o movimento e tudo aberto 24 horas e muita gente trabalhando.

O Brasil é um país muito grande, com muita diversidade, sei muito pouco ainda sobre o Brasil. Meu anfitrião me contou um pouco da história do Brasil. Eu gostaria de conhecer o Pantanal e a Amazônia. Mas o Brasil é muito grande, acredito que passaria muito tempo viajando por aqui. As pessoas são muito gentis,sorriem muito e eu me sinto muito confortável aqui.

E.I. – Como você vê a Coréia hoje?

Sungwon – Eu acho que a guerra não acabou, apenas parou. Hoje temos muitos problemas políticos e um país dividido. As gerações como a minha e de meu pai, por exemplo, são muito diferentes e isso gera muitos conflitos, assim como a divisão do país que ainda existe. Mas eu gosto muito da parte da tecnologia.

E.I. – Há alguma coisa que você gostaria de dizer? Ou uma pergunta?

Sungwon – Gostaria de dizer para os brasileiros que pedalar na Coréia é muito seguro e que deveriam conhecer. Acho que muitos brasileiros tem medo da Coréia ainda e pensam que é perigoso…

E ai? O que acham de um roteiro pela Coréia de bicicleta? Quem se aventura? Deixe seu comentário ai embaixo! Para saber mais sobre a viagem do Sungwon, o blog dele é esse aqui.

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6 comentários

  1. Haha, esse é o creano que eu encontrei em Palhoça, perto do Morro do Cavalo, na Enseada do Brito, em minha recente viagem a Laguna-SC. Isso foi em janeiro deste ano (2016). Como ele e eu falávamos “um pouquinho só” de inglês, nem cheguei a entender seu nome, hehe… Foi um encontro rápido, ele estava procurando por pneu e pude ajudar um pouco. Fico feliz em saber que ele está bem, pedalando.

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  2. História interessante e intensa.
    Hospedei duas meninas de Coreia e criei a melhor imagem possível desse país. Elas foram muito cordiais, simpáticas e sorriam a todo o tempo.
    Talvez devido à citação da morte do pai antes do início da entrevista, já comecei a lê-la com um pouco de melancolia.
    Helga, você sentiu que ele é uma pessoa feliz?
    Obrigado por compartilhar : – )

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