Hérnia de disco “for dummies” para cicloturistas de final de semana

Em 2014 foi a última vez que travei minha coluna depois de um pedal. Como já contei aqui, esse foi um dos principais motivos pelo qual decidi investir em um guidão borboleta. Com ele, além de variar as posições na bike, consigo ficar praticamente ereta nela e nunca mais tive dores ou travei. Na época me cuidei com acupuntura, muito Salompas e anti inflamatórios. E dei a questão como resolvida.

No começo de julho, eu estava pedalando rumo ao Sul de Ilhabela. Era um sábado nublado, de um tempinho meio frio. Estava acompanhada de uma amiga e tínhamos combinado de seguir pedalando até a cachoeira da Laje, uma cachoeira incrível que fica no início da trilha do Bonete. O percurso era de uns 24 quilômetros, mais ou menos, mas nada muito além do que vinha pedalando regularmente. Quando estava chegando ao final do asfalto, comecei a sentir uma forte pontada na coxa direita e como já conheço essa dor, sabia que eu poderia travar. Avisei minha amiga do que estava prestes a acontecer e pedi que ela não ficasse preocupada. Se eu travasse, só iríamos ter que arrumar uma carona capaz de nos levar com as bicicletas para casa.

Paramos no Nova Iorque, um bar que fica no final do asfalto, e tudo o que eu via na minha frente era dor. Perdi totalmente a força nas pernas que ficaram meio dormentes e me encostei na parede. Eu nunca havia pedalado com a minha amiga até então, por isso estava com um pouco de vergonha daquela situação. Mas a dor só ia crescendo.

O que poderia se transformar em um pesadelo ainda maior, de repente virou uma pequena corrente de pessoas generosas que ofereceram carona, comida, banho, remédios, ida ao posto de saúde e uma conversa, que pode parecer pouco, mas é um santo remédio para distrair da dor. Dali para frente, tudo o que aconteceu pode ser resumido em uma frase só: eu me transformei em uma vírgula. E pedalar passou a ser apenas reticências …

A vida de uma vírgula

Minha coluna não apenas travou, como os músculos da lombar se enrijeceram completamente, entortando-a e fazendo com que eu ficasse muito parecida com uma vírgula. Três semanas de repouso, Salompas, compressas de água quente, anti-inflamatórios com componentes químicos de longos nomes e a dor, em todas as cores e formas, eu conheci a dor. Daquelas que vão te minando, sabe?  Se existisse uma escala Richter de dor, iria me candidatar para contribuir com o escalonamento, com certeza.

Eu realmente tinha fé de que aquilo tudo ia passar. Tentei não perder o bom humor, a ponto de acordar de manhã mais torta do que nunca, olhar no espelho e dizer para mim mesma “Bom dia, Gisele Bundchen! Você está realmente linda com esse ar curvado hoje…”

Das outras vezes sempre passou, então fui aceitando o repouso, as limitações… E assim se foi um longo mês, com a bicicleta encostada no canto da sala. Minha autoestima e minha independência foram degringolando. Resolvi então ir procurar um médico, que me indicou fazer uma ressonância e voltar algumas semanas depois.

Hérnia de disco for dummies para cicloturistas de final de semana

Essa daí na foto é a minha coluna. Diga “oi” para ela, pois não parece, mas ela está sorrindo para você.  Agora olhe bem para ela e me diga: onde está o erro?

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Se você respondeu nesses dois discos pretos ali no final, você acertou! Além de pretos, eles também estão um pouco vazados, se você prestar melhor a atenção… Isso ai se chama “protusão” e ocorre quando as vértebras pressionam o disco, fazendo com que ele vá saindo.

Funciona com a mesma lógica de apertar uma bolacha recheada. Só que depois que aperta, você não lambe o recheio e diz “hummm que delícia”.. Quando o recheio sai da bolacha, você tem uma hérnia. E você sente dor. Muita dor.

Muitos fatores podem levar a uma hérnia de disco e pedalar muito sem ter a devida musculatura para isso, pode ser um deles. No meu caso, os fatores que podem ter contribuído para o problema foram o trabalho físico pesado e com impacto, por conta da bicicleta; trabalho muscular repetitivo, pelo próprio ciclo do pedal; e postura de trabalho estática por longas horas, afinal meu trabalho mesmo é escrever e isso significa que boa parte do meu dia estou sentada na frente de um computador… Eu estava pedalando com frequência uns 20 km/dia, mas infelizmente a atividade física constante não te salva de uma hérnia.

Se você está intrigado com o curioso e maravilhoso mundo das hérnias, quer saber como elas vivem e do que se alimentam, você pode clicar aqui.

Mas, calma, pára tudo! Você quer dizer que pedalar pode contribuir para uma hérnia de disco? Mas pedalar não fortalece o abdômen?!!

Pois é, meus queridos leitores! Foi exatamente essa pergunta que eu fiz para o ortopedista e também para o fisioterapeuta. Eu estava pedalando com frequência, sem nenhuma dor. Não entendia porque naquele dia, do nada, simplesmente travei.

Pedalar sim, fortalece a musculatura abdominal, mas não fortalece a musculatura lombar, que pode até ser prejudicada pelo próprio impacto da bicicleta. De impacto em impacto, o recheio da bolacha vai vazando e ai ta feito o estrago.

Além disso, se você é cicloturista de final de semana, como eu, é muito provável que o seu esforço físico não seja lá tão constante assim nem para criar uma boa musculatura nas suas pernas…que dirá no seu abdômen.

O fortalecimento muscular é importante, mesmo que você não pedale longas distâncias diariamente. Ele serve para evitar lesões para ciclistas que pedalam todos os dias como atletas, ou para os meio doidos que curtem pegar uma bicicleta e sair por aí pela estrada sem muitas pretensões. Só para curtir um nascer do sol, por exemplo… E nisso se vão uns 100 km.

O cicloturismo e as necessidades

Eu amo pedalar. É isso. Nada mais do que isso. Eu não sou uma atleta. Eu odeio musculação e eu convivi harmonicamente com uma barriguinha de dança do ventre, até esse ponto da minha vida. Sempre pedalei e se alguém me perguntasse se era necessário fazer bike fit, preparação física e todas essas coisas para pedalar e viajar, eu diria um sonoro “não”. Aliás, eu penso que viajar de bicicleta me levou a uma atmosfera de tanta simplicidade, que quanto menos complicação, melhor. Então, de certa forma, eu nunca alimentei nenhum discurso de que para viajar de bicicleta você precisa de muitas coisas, incluindo uma musculatura.

Mas me deparei com essa situação agora e me vi naquela cena terrível da vida onde o cuspe cai ali redondo na sua testa, sabe?

Acho que uma bike especial, um treinamento físico, o melhor equipamento, não são fundamentais para pedalar ou viajar. Mas se você realmente gosta disso, precisar ou puder investir nisso, tente não ter um problema para então se convencer, ok? É o que eu diria hoje.

No meio do caminho tinha uma hérnia… Uma hérnia no meio do caminho

Pois é… Estou há dois meses com a bicicleta encostada no canto da sala.  Houve um período de abstinência de pedal, onde chorei muito, mas agora já passou.

Minhas pedaladas solitárias e pequenas viagens que estavam sendo um deleite incrível foram interrompidas, e a mim cabe nesse momento ter disciplina e foco para criar um abdômen para que a minha hérnia possa viver quietinha e em paz. E juntas, a gente pedale felizes para sempre. Como uma grande família… Helga, Evita e a Hérnia.<3

A vida foi de modificações desde então. Minha viagem para o Uruguai que tinha começado a planejar para fazer em novembro também foi interrompida. E a grana que eu estava juntando para isso, vem sendo consumida com aulas de Pilates, fora todas as despesas de ressonância, médicos e remédios… Sem plano de saúde, a poupança viagem teve um final triste. Mas beleza, dinheiro vai e vem.

Além do Pilates tenho feito musculação por conta mesmo e exercícios funcionais para o fortalecimento do chamado core, que envolve toda a musculatura da barriga frente e trás. De uma em uma hora, convivo com um despertador que me lembra que é hora de parar de escrever e ir alongar. E assim a vida segue.

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Tudo vem sendo um aprendizado. E mudanças sempre envolvem resiliência, paciência, aceitação e fragilidade. Estou aqui no meio disso tudo agora, me adaptando e morrendo de saudades de pedalar. A vida segue sem o gosto do vento no rosto, mas segue. Não quero ter essa dor nunca mais na vida e agora decidi que vou me cuidar seriamente.Nem que para isso eu precise me adaptar a uma das coisas que mais odeio no mundo: musculação e academias de ginástica.

Todo esse processo foi uma grande lição de certa forma. Agora cabe a mim criar um abdômen para a minha hérnia morar… O que a gente não faz para poder pedalar, não é mesmo? É muito amor.

Muito amor…

Você tem hérnia de disco e pedala? Quer me mandar umas dicas? Então deixe seu comentário aí embaixo!

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8 comentários

  1. Excelente texto, como sempre!
    Muito esclarecedor e pode evitar que esse povo todo que ama pedal e cicloturismo, como eu, tenha o mesmo problema.
    E como disse alguém: a vida fica mais fácil quando você consegue rir de si mesmo(a).
    Parabéns pelo bom humor, pela coragem para a mudança e boa recuperação para ti, Helga.

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  2. Para mim tem uma inclinação intermediária da coluna que ameniza os impactos. Nem tanto na horizontal, que sobrecarga a coluna, mas nem tanto na vertical, que transmite muito impacto do selim. Também ajuda levantar do selim em todas as ondulações do terreno.
    De resto, quando o corpo reclama, eu diminuo a frequência dos passeios.

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  3. Também tenho uma, na cervical. Acho que não veio de pedalar, mas talvez de má postura no trabalho. Segundo meu médico, a partir de uma certa idade todo mundo tem ou vai ter uma, é questão de cuidá-la, como você está fazendo. Coragem, Pilates e juízo, porque as subidas para o Nova Iorque são puxadas até para atletas!!! beijos!

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