De onde vem o medo: sobre viajar só

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

(Cora Coralina, “Mãe”)

A primeira vez que viajei sozinha não foi de bicicleta. Fui para Ouro Preto com uma mochila. Era julho de 2003 e eu estava de férias da faculdade. Cheguei e me deparei com uma cidade vazia. Não sabia ao certo se aquela solidão que eu sentia estava impregnada naquelas igrejas tristes com obras do Aleijadinho, ou se morava em mim. Tentei me distrair e saí para jantar, eu e eu mesma, e vi olhares curiosos no restaurante. Uma série de casais e famílias, eu ali no fundo, sem saber para onde olhar me perguntando “o que eu estou fazendo aqui?”. Comi sem muito gosto, paguei a conta. Saí do restaurante, que ficava há umas cinco quadras da pousada onde me hospedei. As ruas de Ouro Preto durante a noite tinham uma luz meio sombria, em meio a todos aqueles paralelepípedos. Vi que havia um homem atrás de mim. Mudei de calçada procurando uma rota de fuga. Ele mudou também. Acelerei o passo. Ele acelerou também. Ficava sempre atrás. Eu não queria acreditar que estava sendo seguida. Fechei o punho e senti aquele gelo na espinha, que a gente pode chamar de medo. Quando não pude mais, corri até a pousada, sem me preocupar em olhar para trás. Não sabia se vinha atrás de mim ou não. Cheguei com o coração na boca. Contei o que havia acontecido para a dona da pousada e ela só me disse “precisa tomar cuidado”. Aprendi onde morava o medo. Aprendi que era preciso ter cuidado.

Em 2013 eu viajava de bicicleta com meu namorado na época e havíamos combinado de passar o réveillon com mais três casais na Ilha do Cardoso, mais especificamente no Pontal do Leste, uma comunidade de pescadores localizada na parte mais sul da Ilha. Ficaríamos ali e de lá partiríamos para Curitiba, pedalando pelas praias do chamado “Circuito Lagamar”. Era noite de réveillon e não tinha lua. Fazia aquele escuro que não se vê um palmo adiante do nariz. Terminei de cozinhar a ceia, meu namorado me disse para eu ir tomar banho e me arrumar enquanto ele terminava os últimos preparativos. Fui. O banheiro ficava há uns 100 metros da casa. Tudo lá era muito simples, um banheiro de madeira, que na verdade era uma fossa. Quando sai do banheiro, pedi para que meu namorado trouxesse o rodo. Ele entrou na casa e eu saí, segurando todos os meus pertences. Enquanto estava no caminho da casa, em meio ao breu, uma pessoa que eu não vi, veio por trás com uma camiseta e colocou na minha cara, como quem queria me tampar a boca. Puxei rápido a camiseta do rosto, deixei cair meus pertences e gritei. Meu namorado saiu correndo da casa. A pessoa saiu correndo para o mato. Foi tudo muito rápido, uma fração de segundo. Acho que se não tivesse ficado com aquela camiseta vermelha na mão, nunca acreditaria que aquilo havia acontecido. Entrei em pânico. O que aconteceu dali para frente parecia um roteiro de filme de terror. Havia marcas de tênis em volta do banheiro e os pescadores me perguntavam a descrição do sujeito com tanta certeza que algo me dizia que ali já existia uma história não muito boa para incentivar o turismo na região. Fomos embora no dia seguinte.

Voltei para São Paulo certa de que havia aprendido a lição: a liberdade da mulher é limitada. Nesse espaço, nesse limite, só existe o medo. Um medo ensinado e cultivado. Ouse cruzar a fronteira e você estará mais perto do risco. A culpa será toda sua. Mulheres sozinhas não vão a certos lugares.

Em 2014 me apaixonei por um ciclista que estava dando a volta ao mundo. Ele amava bicicletas como eu, havíamos nascido no mesmo dia, no mesmo ano. Um roteiro pronto para uma linda história de amor. Havia terminado de escrever meu livro, minha peça de teatro tinha terminado, estava feliz e cada vez mais sem dinheiro, e sem certeza de que rumo dar para a minha vida, já que ser escritora não me parecia um plano financeiro viável. Peguei um dinheiro que não podia, comprei uma passagem, embalei minha bicicleta e fui atrás dele na Europa. Chegando lá, minha viagem romântica foi por água abaixo em poucos dias. Era preciso pedalar muito, acampar em lugares estranhos, comer comida sempre da mais mais mais barata e passar vários dias sem banho. Percebi que eu não era nem metade da aventureira que eu achava que fosse. E me sentia um lixo por isso. Viajar de bicicleta pela Europa era um sonho, que havia se transformado rapidamente em um pesadelo.  Brigamos. E brigamos. E brigamos. Eu queria tomar banho, ele achava desnecessário.Eu não pedalava o suficiente para acompanhá-lo. Eu sentia medo de dormir em qualquer lugar, ele me olhava e dizia “como você pode morar cercada por grades em São Paulo e aqui, que estamos no meio do nada você tem medo?”. Mas aquilo tudo era muito novo para mim e o medo só crescia. Um dia acordamos depois de uma briga, mal nos falamos durante o café. Ele saiu pedalando sem dizer “tchau”. Quando cheguei em Namur, a primeira cidade da Bélgica, aconteceu tudo o que já contei aqui.

Quando eu estava deitada na cama daquele hostel, sentindo as lágrimas caírem, existia em mim uma menina correndo de um estranho que a perseguia nas ruas de Ouro Preto. Existia uma camiseta querendo tampar a minha boca. Existia só medo. Um medo que me paralisava. Uma culpa por ser mulher e querer tanto algo que talvez eu nunca pudesse ter plenamente: a liberdade.

A cada pedalada o medo foi se diluindo, fui ficando mais leve. Quando completei os 500 quilômetros que faltavam para chegar em Amsterdam eu senti uma liberdade que nunca havia sentido até então. Uma sensação maravilhosa de felicidade e força. A liberdade de não ser abordada, não ser questionada, por simplesmente ser uma mulher. A liberdade de poder ir e vir. “Mas você está sozinha?”. Essa foi uma pergunta que definitivamente ninguém me fez por lá. Quando voltei para o Brasil só tinha um desejo imenso de pedalar mais. Mas, sozinha?

Pedalei por Minas Gerais acompanhada e fiz outras viagens também acompanhada. Mas as estradas brasileiras me traziam mais medo. Velocidades estúpidas e mortes são muito visíveis nos acostamentos por aqui. As cruzes ou animais mortos te lembram disso o tempo inteiro.

Dizem que o contrário do medo é o amor. Então me apaixonei por vários outros aventureiros, buscando companhia para aquele que então seria o meu grande protetor, que me livraria de todo o mal que uma mulher está sujeita por simplesmente querer viajar de bicicleta. Foram uma série de acidentes amorosos, onde cedo ou tarde, me via uma mulher sem história, seguindo o sonho de um aventureiro. Isso, quando não ganhava o título honroso de “musa do Skype”. Sim, você fica ai sendo minha musa na telinha do Skype enquanto eu vou ali viver o mundo, que está cheio de aventuras, mas para aventuras para homens, ok? Você? Junto? Não, veja bem… É uma viagem arriscada, durmo em qualquer lugar, sem conforto… Pedalo muito, não sei se você me acompanha…  É muita responsabilidade para mim, ter você comigo, e se eu te colocar em risco? Não, você fica ai, me esperando, quando tiver um sinal de internet te ligo para dizer que te amo…

fullsizerender                                                    Musa do Skype? Só que não.

Me irritei comigo mesma e achei que estava na hora de parar de acreditar no conto da carochinha, ou, no aventureiro que “te ama e pensa muito em você via Skype”. Eu precisava começar a fazer aquilo que amo sem esperar pelo amor de ninguém, mas não sabia nem por onde começar.

Dei voltas e mais voltas em Ilhabela, pedalando sozinha e procurando uma resposta. Travei minha coluna, ganhei uma hérnia de disco. Enquanto fazia a ressonância, sem saber se aquela dor me deixaria pedalar de novo, eu só pensava na Evita, minha bicicleta. Pensava que ao contrário de todos os grandes aventureiros que passaram pela minha vida, ela nunca me disse “não vá” ou deixou para mim reservado apenas uma telinha de Skype.

Com uma bicicleta eu fui longe… Cheguei a lugares que eu nunca haveria chegado se não fosse com uma bicicleta. Conheci pessoas lindas que nunca teria conhecido se não fosse com uma bicicleta. Vi paisagens sensacionais! Ver o mundo através de uma bicicleta é um presente. Tenho para mim que isso não é e nem pode ser um privilégio destinado apenas aos homens.

Quando me recuperava da hérnia de disco, recebi um convite do Sesc Bauru para falar sobre mulheres que viajam sozinhas. Estava na hora de pegar a estrada e atravessar essa fronteira do medo de pedalar no Brasil. Estava na hora de pegar a estrada eu e a minha bicicleta.

Quando arrumei os alforjes, sentia dores de barriga de medo. Olhava para eles prontos no canto do quarto e sentia vontade de ir ao banheiro. Fiquei com medo de sentir a mesma paralisia, mas um pensamento tranquilo me dizia para tentar. Pelo menos tentar. “Se achar que não é seguro, pego um ônibus e sigo”.

O medo sempre teve seu espaço nos meus alforjes. Vai sempre ter. No final das contas, ignorá-lo, faz com que ele cresça nas sombras e tome proporções muito maiores do que eu. É preciso respeitar o medo, aceitá-lo,sem deixar que ele te conduza. É preciso ter a consciência de que o medo torna as coisas maiores do que são, ao mesmo tempo, que te protege. O medo é cego. É bom não tentar ver as coisas apenas através dele.

Quando coloquei a bicicleta na estrada, nada daquilo era novo para mim. Em 255 quilômetros, pensei muito na vida e tive a certeza de que quando estou pedalando na estrada, estou em paz. Na velocidade de duas rodas, existe espaço para tudo. Para o medo, que me pede respeito. Para a felicidade, que me traz novos sonhos.

Algumas pessoas olhavam para mim assustadas e me diziam “você é muito corajosa!”. Mas acho engraçado quando as pessoas me dizem isso. Para mim, a maior coragem que alguém pode ter na vida é não fazer aquilo que ama, é não ser quem você é. Coragem é se limitar antes mesmo de conhecer seus próprios limites. Coragem é deixar que o medo decida por você. Isso sim é de uma coragem extrema.

A estrada me mostra que estamos aqui só de passagem. Nesse breve espaço de tempo, coragem é viver esperando.

Para saber mais sobre o Elas Viajam Sozinhas do Sesc de Bauru, clique aqui.

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